Durante nossa estadia na Costa Dourada, decidimos passar um dia explorando Reus, uma cidade que combina duas paixões minhas: arquitetura modernista e gastronomia com história. Reus é conhecida como o berço de Antoni Gaudí e como a capital catalã do vermute — e viver isso de perto foi uma das experiências mais encantadoras (e saborosas) da viagem.
Manhã: arte, história e o rastro de Gaudí
Plaça del Mercadal e a deslumbrante Casa Navàs
Começamos o dia na Plaça del Mercadal, o coração da cidade. Uma praça vibrante, cheia de cafés com mesinhas ao ar livre, prédios históricos e aquela sensação de que ali tudo acontece.

Logo de cara, fui atraída pela imponente Casa Navàs, uma obra-prima modernista de Lluís Domènech i Montaner.

A visita guiada me transportou ao início do século XX: vitrais coloridos, mosaicos delicados, mobiliário original — tudo incrivelmente preservado. Parece até que a família só saiu para tomar um café e volta já. O último membro da família morou na casa até 1998! É a única casa modernista com o interior original.

Curiosidade: a Casa Navàs é uma das poucas casas modernistas da Europa que preserva quase todos os elementos originais. Um milagre arquitetônico (e de bom gosto).
Gaudí Centre: um mergulho no gênio de Reus
A poucos passos dali, entrei no Gaudí Centre, um museu interativo que me ajudou a entender a mente desse gênio que nasceu em Reus. Maquetes, experiências sensoriais e uma linha do tempo cheia de detalhes revelam como Gaudí se inspirava nos elementos da natureza e na espiritualidade. Saí de lá com a sensação de que ele era uma espécie de alquimista do concreto. E talvez fosse.

Igreja Prioral de Sant Pere e o campanário
Segui até a Igreja de Sant Pere, símbolo gótico da cidade. Subi os muitos degraus do campanário (62 metros de altura e alguns suspiros depois) e fui recompensada com uma vista maravilhosa da cidade, com os telhados de Reus em tons de telha, a serra ao fundo e o vento nos cabelos.
Dica: se você tem medo de altura ou de escadas em espiral apertadas, talvez seja melhor só acenar para o campanário de baixo mesmo. A vista é linda, mas as pernas sentem.
Ruas comerciais e um último brinde
Antes da pausa para o almoço, caminhei pelas elegantes Carrer de Monterols e Carrer de Llovera, as ruas comerciais mais charmosas de Reus. Por lá, misturam-se boutiques locais, lojas especializadas em produtos catalães e vitrines que parecem ter sido arrumadas por estilistas com bom humor e senso estético. Comprei um pequeno frasco de vermute artesanal e um livro sobre modernismo catalão (presente para mim mesma — e merecido).

Curiosidade: Reus foi um dos maiores centros comerciais da Catalunha no século XIX, e a tradição do comércio elegante se mantém viva nas vitrines da Monterols até hoje.
Plaza Prim: entre palmeiras e monumentos
Cheguei então à Plaça Prim, uma das mais fotogênicas da cidade, com suas palmeiras simétricas e o monumento ao General Prim bem no centro. A praça tem um ar solene e elegante, ideal para uma pausa estratégica no banco mais bonito que encontrar. O clima ali é de tranquilidade urbana, com um toque de grandiosidade.

Casa natal de Gaudí: um ponto de memória
Fui então até a casa natal de Gaudí, na Calle de Sant Vicenç, 4. Hoje, só resta uma placa simples indicando que ali nasceu, em 1852, o menino que um dia reinventaria a arquitetura como a conhecemos. Fiquei alguns minutos em silêncio, imaginando o pequeno Gaudí brincando pelas ruas, talvez chutando pedrinhas modernistas.

Reus entre dois gigantes: Domènech i Montaner e Antoni Gaudí
Muita gente vem a Reus por Gaudí, mas quem realmente moldou a estética da cidade foi Lluís Domènech i Montaner — arquiteto da burguesia, dos hospitais-palácio e das salas de concertos encantadas.

Enquanto Gaudí era o visionário místico, que projetava igrejas como se estivesse conversando com o céu, Montaner era mais prático: criava beleza funcional, com flores de pedra e curvas suaves que serviam à vida urbana. Reus é uma aula ao ar livre sobre esses dois estilos de modernismo.

Casa Rull: modernismo civil e sóbrio
Passei pela Casa Rull, construída por Montaner em 1900. A fachada é forte, simétrica, com brasões e detalhes em pedra. Hoje é sede de um instituto cultural e só está aberta para visitas em ocasiões especiais, mas por fora já vale uma boa contemplação e umas três fotos.
Casa Gasull: delicadeza e cerâmica
Ali perto está a Casa Gasull, também de Montaner, construída em 1911. Era uma casa com armazém para uma família de comerciantes de azeite — e que bom gosto eles tinham! A fachada é discreta, mas cheia de detalhes lindos em cerâmica e ferro forjado.
Curiosidade: os Gasull vendiam azeite, mas entregaram ao arquiteto uma casa com tempero arquitetônico de altíssimo nível.
Almoço: sabores e história no Museu do Vermut
Chegada a hora do almoço, fui ao icônico Museu do Vermut — e posso dizer sem exagero: foi um dos melhores almoços da viagem.

Sentei perto dos barris antigos, rodeada de cartazes vintage, e pedimos dois vermuts, o Cori e o Yzaguirre, acompanhados por jamón Joselito, boquerones e azeitonas. Sabe quando tudo combina — o sabor, o ambiente, a trilha sonora (sim, estava tocando jazz suave)? Pois é.
Curiosidade real: Reus foi, no final do século XIX, o maior destilador de aguadente da Europa. Ele fazia parte da rota Réus – Paris – Londres e definia o preço da aguardente mundial! Dizem que nessa época havia mais de 400 destilarias em Réus para produzir a aguradente a partir do vinho branco. Posteriormente essa aguardente era aromatizada com especiarias e se chamaria vermute. Em Turin, na Italia, à mesma bebida se deu o nome de Martini, mundialmente conhecuda.
Tarde: arquitetura modernista e charme local
Institut Pere Mata: onde saúde e beleza se encontram
Fechamos o dia com chave de ouro: dirigimos até o Institut Pere Mata, um antigo hospital psiquiátrico com arquitetura que parece saída de um conto. O Pavilhão dos Distinguidos, que está aberto à visitação, é simplesmente deslumbrante. Azulejos, vitrais, tetos trabalhados… Tudo pensado para acolher e curar com beleza.

Dicas práticas para quem quiser repetir meu roteiro
Chegada: Reus é facilmente acessível de trem ou ônibus desde Barcelona, Tarragona ou Salou.
Calçado: Use sapatos confortáveis — o centro é plano, mas você vai andar bastante. Ingressos:
Reserve com antecedência para a Casa Navàs e o Institut Pere Mata. Almoço: faça reserva no restaurante do Museu do Vermut — o lugar é concorrido.
Minha conclusão
Reus me surpreendeu como poucas cidades. Em um só dia, vi onde nasceu Gaudí, me encantei com o talento sofisticado de Montaner, aprendi a respeitar profundamente o vermute e me deixei levar pela elegância tranquila dessa cidade que sabe preservar sua história sem se levar a sério.
Se você está na Catalunha e tem um dia livre, não pense duas vezes. Reus é um passeio de alma, arte e sabor.
