Quando pensamos em Ibiza, logo vem à mente a ilha da festa eterna. Mas a verdade é que o lugar é muito mais do que isso: história milenar, paisagens mediterrâneas de tirar o fôlego, gastronomia surpreendente e, claro, uma cena noturna única no mundo. Colonizada desde a Antiguidade pelos fenícios e posteriormente dominada por cartagineses, romanos, árabes e catalães, Ibiza guarda camadas de cultura que ainda hoje podem ser vistas nas muralhas de Dalt Vila, declaradas Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.

Foram 4 dias intensos explorando Ibiza e Formentera — entre mergulhos em praias cristalinas, descobertas gastronômicas, sunsets mágicos e festas que só poderiam acontecer aqui.
Dia 1: Chegada a Figueretes
Nos hospedamos no Apartamentos Mar y Playa, em Figueretes, uma escolha excelente para quem quer estar perto do centro de Ibiza Town sem perder o conforto. Também queríamos estar perto da area de restaurantes e baladas, mas longe o suficiente para ter um ambiente tranquilo. O apart-hotel tem recepção 24h, piscina, beach club e um restaurante chamado Horizons, que logo virou um dos nossos favoritos. Além de servir drinks bem preparados e pratos saborosos a preços justos, oferece vista direta para o mar — perfeito para começar a sentir o clima da ilha.

Decidimos não alugar carro pelo simples motivo que na alta temporada é impossível estacionar em Ibiza. Não queríamos o estresse de ter que ficar buscando vaga e pagando “zona azul”; sim, as vagas são pagas e a cada 4 ou 6 horas (dependendo da cor da vaga) você tem que trocar o carro de lugar. Se você quer arriscar, baixe o App El Parking para poder ir renovando o pagamento online porque aqui eles guincham mesmo. Andamos a pé, usamos táxi (App Taxi Click) e em Formentera alugamos uma scooter. Outra opção é alugar um scooter em Ibiza, no centro mesmo, tem muitas lojas e aluguel e é mais fácil de estacionar. Mas tem que ter carnê de moto.
À noite, fomos jantar no Mariner, em Ibiza Town, um dos melhores restaurantes que já conhecemos em viagens. A cozinha é criativa, sem perder a essência mediterrânea. O destaque foi o polvo grelhado, servido com batatas fritas no bacon — uma combinação ousada e absolutamente viciante. Também provamos a raia, peixe típico da região, preparada de forma delicada e deliciosa. O serviço atencioso e a vista para o porto completaram uma experiência gastronômica memorável, que elevou ainda mais o início da nossa estadia.


Depois do jantar, caminhamos pelo centrinho de Ibiza Town, que à noite ganha um charme especial. As ruas estreitas de pedra ficam iluminadas por luzes suaves, com lojinhas, bares e cafés ainda abertos, criando uma atmosfera animada mas sem pressa. Tomamos sorvete de pistache todas as noites no Gelatos Ibiza porque era delicioso. O porto de Ibiza também merece destaque: cheio de iates luxuosos ancorados, restaurantes à beira d’água e pessoas circulando em clima descontraído. É o lugar perfeito para passear sem rumo, observar o vai e vem dos barcos e sentir a energia cosmopolita da ilha.

Dia 2: História, sunset e festa
Depois de tomar café no May y Cielo, fantástico, barato e com vista para o mar, começamos o dia explorando o coração histórico de Ibiza: Dalt Vila, a cidade murada que domina o porto. Fundada pelos fenícios no século VII a.C., a cidade passou por mãos romanas, islâmicas e finalmente catalãs, quando foi incorporada à Coroa de Aragão no século XIII. No século XVI, diante da ameaça constante de piratas e invasões, foram erguidas as imponentes muralhas renascentistas, hoje Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.


As fortificações são formadas por vários baluartes (bastions) de planta pentagonal, construídos entre os séculos XVI e XVIII para abrigar peças de artilharia e resistir a ataques. Caminhar sobre essas muralhas, observando os balaústres de pedra e imaginando a defesa da cidade, é como tocar a história com as próprias mãos.




As ruínhas de paralelepípedo são um charme à parte: pequenas casas caiadas, praças escondidas e igrejas que contam séculos de devoção. Ao longo das ruas, encontramos lojinhas autênticas, butiques modernas e ateliês que convivem em harmonia com essa atmosfera histórica.


Fizemos uma primeira parada no Es Forn, um clássico local, para brindar com uma taça de cava. Logo ao lado, me rendi a uma das tendências mais curiosas do verão ibicenco: as botas country de camurça, que todo mundo usa mesmo no calor, combinadas com vestidos leves. Não resisti e comprei um par na Boutique Amancer para usar de noite no Hell’s Kitchen.
Seguimos então até o Passeig de Vara de Rey (Born), a elegante avenida da parte baixa da cidade. Ali, entre árvores e mesas ao ar livre, pedimos um vermut Izaguirre (leia a história do vermut catalão neste post de Reus) servido com azeitonas e boquerones — combinação perfeita para sentir a verdadeira dolce vita espanhola.
Essa manhã em Dalt Vila foi uma das surpresas mais ricas da viagem: muito além das festas, Ibiza revela sua alma na história de resistência às invasões, na herança de sua produção de sal que sustentou gerações, e na atmosfera boêmia que atraiu hippies e artistas a partir dos anos 60.
Um dos artistas mais importantes foi Antoni Marí Ribas (1906–1974), conhecido como Portmany, considerado “o pintor da alma ibicenca”.
Suas telas capturaram com delicadeza o cotidiano da ilha no século XX: pescadores em seus barcos, mulheres vestidas com trajes tradicionais, camponeses no trabalho dos campos de sal, festas religiosas e as paisagens únicas de Dalt Vila e do Mediterrâneo. Mais do que um pintor, Portmany foi um cronista visual de uma Ibiza que ainda não havia se transformado no ícone turístico global que conhecemos hoje.
Sua casa e legado deram origem à Fundación Antoni Marí Ribas “Portmany”, que preserva e divulga suas obras, permitindo que visitantes e moradores redescubram a identidade cultural da ilha. Caminhar por Dalt Vila e depois ver os quadros de Portmany é como olhar para a mesma cena em dois tempos diferentes: o passado preservado nas telas e o presente pulsando nas ruas.


Já passaram por aqui David Bowie, Fred Mercury, De Niro, Richard Gere, Roberto Carlos, Neymar e Ronaldo segue tendo uma casa na Ilha. Uma ilha que pulsa entre passado e presente.
À noite, era hora do esperado programa: Hell’s Kitchen + Calvin Harris no Ushuaïa.
Chegamos cedo ao Beach Club do Hotel Unexpected dUshuaïa, brindando com taças de champanhe. Um lugar bem exótico e uma audiência a altura.



O hotel fica na Playa d’en Bossa, muito conhecida pelas baladas mais famosas da ilha. Ibiza continua sendo o epicentro mundial da música eletrônica, reunindo as baladas mais icônicas do planeta — de templos históricos como Pacha e Amnesia a superestruturas futuristas como Hï Ibiza, Ushuaïa e o recém-inaugurado hiperclub [UNVRS].
Ali, a ilha vibra ao som dos maiores DJs da cena, como David Guetta com seu espetacular Galactic Circus, Calvin Harris, Armin van Buuren, Black Coffee, MEDUZA, Vintage Culture e tantos outros. Cada noite é um espetáculo de luzes, tecnologia e energia coletiva, transformando Ibiza em palco onde a música nunca dorme.
O lugar já começa a fervilhar em clima de festa a partir das 17:00. A energia era contagiante: música vinda de todos os lados, gente do mundo inteiro, e aquele ar único de expectativa no ar.


O restaurante Hells’s Kitchen oferece o pacote “Party & Bite”, que precisa ser reservado por telefone. A experiência começa com um menu fechado em um ambiente moderno e divertido, inspirado no programa de mesmo nome do chef Gordon Ramsay, mas com um toque sofisticado e teatral. Até o corredor para o banheiro, iluminado de forma cênica, é inusitado e parte do espetáculo.



O atendimento foi impecável, com garçons atenciosos e uma cozinha equipada com o que há de mais moderno em tecnologia gastronômica — inclusive uma iluminação especial que mantém os pratos aquecidos até chegarem à mesa.
O famoso pão da casa e a salada Caesar, considerada uma das estrelas do menu, foram simplesmente os melhores que já provei. E a cada prato que chegava, ficava claro que a proposta do restaurante é entregar não apenas comida, mas uma experiência sensorial completa: sabor, estética e inovação em cada detalhe.



Após o jantar, a simpática Francesca nos acompanhou até o lendário Ushuaïa Ibiza. A entrada VIP nos levou direto à festa de Calvin Harris, com opção de ficar em uma área exclusiva na terraza ou literalmente ao lado do palco.
A estrutura impressiona: acústica impecável mesmo ao ar livre, efeitos de luzes e lasers alucinantes, e a cada batida, aviões passando bem por cima do local, criando uma cena surreal. Foi uma noite épica, de música eletrônica de altíssimo nível e vibração inesquecível.



Dia 3: Formentera, o paraíso ao lado
Café da manhã cedo no Yess! e seguimos de ferry até Formentera. Uma dica é comprar o ferry com antecedência porque na alta temporada pode esgotar. Comprei diretamente no site da Balearias, que é a maior empresa das Baleares, e comprei o bilhete aberto, assim poderia ir e voltar no horario que quisesse.
A viagem dura uns 40 minutos e uma vez aí, a dica é alugar uma scooter, já que a ilha é pequena e perfeita para percorrer de moto. Além disso, uma carro é bem difícil de estacionar nas praias mais famosas e por isso, uma vez lotado o estacionamento, você tem que esperar alguém sair para conseguir entrar. Com relação às motos, isso não acontece. Alugamos com antecedência no site da Pujols e quando chegamos no porto foi só retirar a moto e os dois capacetes (tem que deixar um depósito de 20€ pelos dois).
Nosso primeiro destino foi a Playa de Ses Illetes, famosa pelas águas azul-turquesa que parecem pintadas à mão. Ela fica dentro de uma reserva natural e por isso para entrar tem que pagar uma taxa. De moto pagamos 5€.



As salinas de Formentera são um dos cartões-postais mais marcantes da ilha e fazem parte do Parque Natural de Ses Salines, que se estende entre o sul de Ibiza e o norte de Formentera. Desde a época dos fenícios, há mais de 2.000 anos, a extração de sal foi uma das principais atividades econômicas locais, deixando uma forte marca cultural e paisagística.
Hoje, as antigas lagoas de sal formam um espetáculo natural: no verão, ganham tons rosados devido a microalgas e contrastam com o azul turquesa do mar, criando cenários fotográficos impressionantes. Além da beleza, a área é um refúgio ecológico, com dunas, prados submarinos de posidonia oceanica (Patrimônio da Humanidade pela UNESCO) e uma rica fauna, incluindo flamingos que descansam nas águas rasas durante as migrações.



Ou seja, visitar as salinas não é só conhecer um lugar histórico, mas também mergulhar na essência natural de Formentera, onde cultura, ecologia e estética se encontram em perfeita harmonia.
Uma vez ali, depois de visitar a praia, tomamos mais um Aperol Spritz no Es Ministre – estava fazendo 40 graus nesse dia – e entendemos por que ela figura sempre entre as mais bonitas do mundo. Com sua transparência absoluta, a água se mistura à areia fina e branca, revelando um brilho verde-água único. Outro restaurante popular por ali é o Juan y Andrea e fica na outra ponta da praia.
Subimos na moto e fomos para o outro lado da ilha, à praia Migjorn, que é a maior de Formentera com quase 5km de extensão. Essa praia é bem mais tranquila, mas a areia é mais escura o que deixa a água com um tom mais azulado.
Almoçamos no incrível Gecko Beach Club, onde a gastronomia mediterrânea encontra o ambiente boho-chic típico de Formentera. Comemos um robalo no sal que estava delicioso. O Gecko também é um hotel e tem uma lojinha de saídas de banho bem diferentes. Comprei, claro.



À tarde, passeamos pelo charmoso centro de Sant Francesc Xavier, cheio de lojinhas e cafés tranquilos, tomamos mais um sorvete de pistache la Mukkeria, antes de retornar a Ibiza no fim do dia. No porto de Formentera existe uma infinidade de lojas de souvenir e finalmente encontrei o chapéu de palha estilo country que estava buscando, última moda em Ibiza, anota aí.
Dia 4: Es Vedrà, misticismo e sabor
Esse foi o dia de conhecer um dos cartões-postais mais icônicos de Ibiza: a misteriosa rocha de Es Vedrà, cercada de lendas sobre magnetismo e espiritualidade.


Reservamos almoço no restaurante Es Boldadó, cravado nos penhascos de Cala d’Hort, com vista privilegiada para Es Vedrà. Uma semana antes, Ronaldo tinha vindo jantar aqui. A comida era excelente — comemos arroz negro com cigalas e de sobremesas a típica torta de queijo da ilha que leva hortelã, confesso que um sabor bem peculiar —, mas há um detalhe importante: o restaurante literalmente expulsa os clientes após 2 horas de mesa, mesmo com consumo alto, e não chama táxi para a volta.



Foi preciso usar o aplicativo Taxi Click (o único que realmente funciona na ilha), mas quando há alta demanda, ele trava e pode ser complicado conseguir transporte. Ainda assim, o cenário e a comida valeu cada minuto: almoçar diante de Es Vedrà é uma experiência que fica gravada na memória.
