Se existe um lugar na Sicília que parece ter sido desenhado para conquistar corações, esse lugar é Taormina. Suspensa entre o azul intenso do mar Jônico e o olhar imponente do vulcão Etna, a cidade é um convite à contemplação e ao encantamento.

🏛️ Uma cidade de muitas histórias
Fundada pelos gregos no século IV a.C. como Tauromenion, Taormina nasceu em uma posição privilegiada: no alto de uma colina, com vistas de tirar o fôlego. Foi palco de tragédias e comédias no seu Teatro Antigo, que até hoje emociona quem pisa ali. Com os romanos, o teatro ganhou novas formas e passou a receber gladiadores e espetáculos grandiosos.
Nos séculos seguintes, Taormina resistiu às investidas árabes até cair em 902 d.C., sendo uma das últimas fortalezas cristãs da Sicília. Sob os normandos, recuperou força e, durante a Idade Média, manteve-se discreta — até ser redescoberta séculos depois.
🎨 O redescobrimento romântico
No século XIX, a cidade ressurgiu como joia do Grand Tour, atraindo artistas, escritores e viajantes fascinados pela paisagem. Goethe a chamou de uma das visões mais belas do mundo. Wagner encontrou inspiração, e D.H. Lawrence escolheu viver ali por um tempo. Não à toa, Taormina passou a ser conhecida como a “pérola do Mediterrâneo”.

✈️ Minha chegada a Taormina
O meu roteiro começou no aeroporto de Catânia, de onde segui em um transfer da Welcome Pickups. É só reservar online e o serviço é impecável. Já reservei para nossa próxima viagem, porque eles atendem em diferentes países da Europa.
Chegar a Taormina já é, por si só, uma experiência: a estrada costeira se abre para o azul do Mediterrâneo e a silhueta do Etna ao fundo.


Onde se hospedar em Taormina
Hospedei-me no charmoso Hotel Caparema, de onde era fácil explorar tanto o centro histórico quanto a orla. Eles tem um transfer que te leva e traz do centro em 10 minutos.

Nos primeiros dias, aproveitei o mar no Lido Spiaggia Mazzeo (do próprio jotel) com uma praia tranquila e perfeita para descansar. Amamos o hotel e repetiria mil vezes. O Lido é excelente, paradisíaco e com serviço muito bom. Não dava vontade de ir embora.



A praia do hotel é a Spiaggia Mazzeo, fantástica! Uma das melhores e mais tranquilas de Taormina, com seu mar cristalino e pedrinhas coloridas que brilham ao sol. Menos movimentada que Isola Bella, é o refúgio perfeito para mergulhar e sentir o ritmo sereno do Mediterrâneo.


🌸 Roteiro pelo coração histórico
Entrei no centro histórico de Taormina pela Porta Messina, uma das antigas portas da muralha medieval. Logo na chegada, o Corso Umberto I já esbanja todo seu charme: palacetes em pedra, lojinhas cheias de cores, boutiques elegantes e trattorias que exalam aromas irresistíveis.

Seguindo pela rua principal, cheguei à Piazza IX Aprile, o coração pulsante da cidade. O chão quadriculado em preto e branco parecia um tapete que conduzia meu olhar até o Etna ao fundo e a baía cintilante.


Sentei em um dos cafés da praça, pedi um Limoncello Spritz no Café Wunderbar e fiquei apenas contemplando — parecia um daqueles cenários que misturam sonho e realidade.


Continuei a caminhada até a Cattedrale di San Nicolò, uma igreja que mais parece uma fortaleza, lembrando que Taormina já foi grega, romana, árabe e normanda. Cada pedra parece guardar um segredo, cada fachada conta uma parte da história.

No meio do passeio, fizemos algumas paradas inesquecíveis: saboreamos uma granita no Bam Bar, que é quase uma instituição em Taormina.



Também nos deliciamos com o famoso cannolo de ricotta do Roberto – o “rey dei cannoli” e ainda aproveitamos para comprar cerâmicas típicas, coloridas e vibrantes, que carregam um pedacinho da Sicília em cada traço.


Perder-me nas ruelas laterais foi o melhor da experiência. Escadarias estreitas decoradas com vasos de cerâmica, varandas floridas e pátios escondidos me revelaram a essência siciliana que não se mostra na pressa. É nesses cantinhos que a cidade sussurra ao ouvido.

No meio das ruelas de Taormina, descobri o Vicolo Stretto, considerado a rua mais estreita da Sicília. Com apenas 43 centímetros de largura em seu ponto mais apertado, é uma escadaria que parece mais um segredo escondido entre as paredes coloridas e adornadas por vasos de flores.

É impossível não parar para uma foto e sorrir diante desse detalhe curioso: em Taormina até os caminhos mais estreitos guardam beleza e poesia.
🏩 Grand Hotel Timeo: o terraço eterno de Taormina
Tomar ao menos um drink no Belmond Grand Hotel Timeo é uma experiência que vai além do luxo: é sentir Taormina do alto, diante da vista mais icônica da Sicília.


Do seu terraço, a cidade se abre em camadas — o azul intenso do mar Jônico, a imponência do Etna ao fundo e o perfil do Teatro Antico logo ao lado. É um cenário que mistura elegância atemporal e força natural, onde cada pôr do sol parece um espetáculo exclusivo para quem tem o privilégio de estar ali.
O atendimento é excelente e os drinks, juntamente com os amuse buche que o chef oferece fazem com que a noite seja uma experiencia única.


O Grand Hotel Timeo é um dos ícones de Taormina e da hotelaria de luxo na Sicília. Inaugurado em 1873, foi o primeiro hotel da cidade, aberto pelo empresário Don Francesco La Floresta, justamente para acolher os viajantes do Grand Tour europeu que buscavam arte, arqueologia e o clima mediterrâneo.

Desde então, o Timeo se tornou o ponto de encontro da elite cultural e política internacional. Já receberam suas vistas célebres nomes como Truman Capote, Tennessee Williams, Greta Garbo, Audrey Hepburn, Sophia Loren e até o imperador Kaiser Guilherme II da Alemanha. Era visto como “um salão literário ao ar livre”, onde artistas e intelectuais encontravam inspiração no contraste entre o mar azul e o Etna fumegante.


Hoje, sob a marca Belmond, o hotel mantém sua aura clássica com toques de modernidade. Seu terraço panorâmico, com vista para o Teatro Antico, o vulcão e a baía de Naxos, é considerado um dos pontos mais deslumbrantes do Mediterrâneo — um verdadeiro camarote natural para o espetáculo da Sicília.
🏟️ Teatro Antigo de Taormina
Depois de tomar um aperitivo no Bar Timeo do Hotel Belmond Timeo, seguimos para o Teatro Antico de Taormina, que fica bem ao lado, para assitir a ópera Carmen.

No alto, o imponente Teatro Antico de Taormina se tornou palco da minha experiência mais inesquecível: assistir à ópera Carmen, com a noite siciliana ao redor e o vulcão iluminando o horizonte. Um espetáculo dentro de outro espetáculo. Comprei os ingresos no site da Ticket One porque achei bem dificil encontrar informaçao na Internet sobre os espetáculos no Teatro Antico. Mencionam outras óperas em Taormina, mas que sao em um teatro comum, por isso preste atençao se realmente o ingresso menciona o Teatro Antico.

🎭 Carmen em Taormina: Paixão, Liberdade e Tragédia à Beira do Etna
Assistir à ópera Carmen no Teatro Antico de Taormina é viver uma fusão rara entre história, arte e cenário natural. A obra-prima de Georges Bizet, estreada em 1875 em Paris, conta a história de Carmen, a cigana livre e indomável que seduz o soldado Don José.

Entre a sensualidade da Habanera, o magnetismo da Canção do Toreador e o duelo final entre paixão e liberdade, a trama se desenrola em Sevilha: o amor obsessivo que leva à destruição. Carmen prefere a morte à perda da sua autonomia — e por isso se tornou um dos grandes ícones femininos da ópera.

Naquela noite em Taormina, enquanto o Etna se iluminava ao fundo e o mar refletia a lua, que estava crescente e vermelha, a música de Bizet ganhou uma força quase mítica. Era como se a própria Sicília — com seu fogo, seu mistério e sua intensidade — desse voz a Carmen.
Mais do que uma ópera, foi um lembrete de que a liberdade tem um preço — mas também uma beleza eterna.
🌙 A Lenda das Cabeças de Mouro (Teste di Moro)
Paseando por Taormina será impossível não notar as diversas “Teste di Moro” ou Cabeças de Mouro usadas como coloridos vasos de majeriões originalmente, e, hoje, de cactos e flores.

📜 O conto
No bairro árabe de Palermo, na época medieval, vivia uma jovem siciliana muito bela que cuidava de plantas em sua varanda. Um dia, ao passar pela rua, um mouro (homem árabe) se apaixonou por ela.
Ele a cortejou intensamente, declarando seu amor. A jovem correspondeu, e os dois viveram uma paixão intensa.
Porém, ela logo descobriu que o mouro tinha uma família e esposa no Oriente, e que partiria em breve, deixando-a sozinha.
Consumida pelo ciúme e pela raiva, a jovem esperou o amado adormecer… e durante a noite, decapitou-o.

Colocou a cabeça dele como vaso em sua varanda e plantou manjericão dentro. O cheiro intenso da erva atraiu os vizinhos, que começaram a copiar a ideia, pedindo a ceramistas que fizessem vasos em forma de cabeça.
🌱 Simbolismo
O manjericão (basilico, em italiano) virou símbolo de amor e dor, mas também de prosperidade. As cabeças — chamadas Teste di Moro — se tornaram símbolos da Sicília, especialmente em Caltagirone, cidade famosa pela cerâmica. Hoje, muitas vezes aparecem em par (homem mouro e mulher siciliana), representando a dualidade: amor & dor, encontro & perda, beleza & tragédia.
🌊 O encanto de Isola Bella
Outro momento mágico foi a visita à Isola Bella, a pequena joia natural aos pés de Taormina. Um caminho de pedras conecta a ilha à costa.

No Lido Pizzichela encontrei um refúgio perfeito para curtir mar cristalino. Ali, a sensação é de estar dentro de uma pintura viva. No entanto, achei a praia bem lotada e preferi mil vezes a do nosso hotel. Mas tem que visitar, pelo menos uma vez, a Praia de Isola Bella, afinal, é o cartao postal da Sicilia – e aparaceu na série White Lotus!

🍝 Sabores da Sicília
🍰 Doces: pistache e amêndoas reinam
Na Sicília, até os doces contam histórias de conquistas e encontros de culturas. A cassata, nascida no período árabe com ricotta adoçada e marzipã de amêndoas, tonalizado em verde, ganhou forma nos conventos normandos e, no barroco, se transformou em um espetáculo colorido com frutas cristalizadas e glacê. Sua versão em miniatura, a cassatina, é como uma joia doce. Eu conhecia a versao da Di Cunto, em Sao Paulo, mas esta tem um gosto de licor bem forte, enquanto que a versao italiana troca o licor pela cobertura de marzipa.

O cannolo, por sua vez, nasceu como um doce de Carnaval, símbolo de abundância e fertilidade antes da Quaresma: sua casquinha crocante, recheada de ricotta cremosa e coberta de pistaches ou frutas, tornou-se um ícone mundial.

No centro de tudo está o marzipã, pasta de amêndoas e açúcar trazida pelos árabes e transformada em arte nos conventos, seja na cobertura verde da cassata, seja nas frutas coloridas da frutta martorana. Olha a capacidade de moldar frutas de mazipa!

Não é por acaso que pistache e amêndoa são protagonistas na confeitaria da ilha — foram os árabes que os trouxeram, junto com o açúcar e os cítricos, transformando a doçaria siciliana em um verdadeiro patrimônio cultural.
Provar uma cassatina em Taormina ou um cannolo do “rey dei cannoli” é, mais do que um prazer, uma forma de morder a própria história da Sicília.
🌋 Do Etna à mesa
O Etna, o vulcão ativo mais alto da Europa, não é apenas um espetáculo natural que domina a paisagem de Taormina: ele também molda o sabor da Sicília. Suas cinzas ricas em minerais fertilizam o solo ao redor, criando ingredientes que não existem em nenhum outro lugar do mundo.
O pistache de Bronte, chamado de “ouro verde”, deve sua doçura intensa e aroma inconfundível à terra vulcânica em que cresce.
O mesmo acontece com os vinhos, como o Etna Rosso, que carregam notas minerais únicas, e com as frutas cítricas, como as laranjas sanguíneas. Nós provamos o Etna Rosso Sensi e era muito bom.

Até os ingredientes mais simples — tomates Pachino, doces e suculentos, o orégano siciliano seco ao sol e o manjericão fresco — ganham um sabor inigualável graças ao clima mediterrâneo e à riqueza mineral da terra.
Cada prato servido na ilha, da pasta alla Norma ao cannolo coberto de pistache, carrega um pouco da energia ancestral desse vulcão que, ao mesmo tempo em que assusta, oferece abundância e prazer.


Provei a clássica pasta alla Norma, criada no século XIX em Catânia como homenagem à ópera Norma de Vincenzo Bellini: um prato que une ingredientes árabes, como a berinjela, à ricotta salata local, resultando em uma verdadeira obra-prima catanesa. Também me rendi à pasta al pistacchio, símbolo de sofisticação, feita com o pistache de Bronte — o “ouro verde” trazido pelos árabes e que encontrou no solo vulcânico do Etna seu sabor único.
Na pasta al pistacchio, o creme verde e delicado dos pistaches de Bronte se mistura ao toque macio da ricotta e ao perfume do azeite siciliano. Cada garfada é como provar a riqueza do Etna transformada em seda no paladar.
Entre as delícias de rua, experimentei os arancini, bolinhos de arroz dourados que nasceram no período árabe, inspirados nos pratos de arroz temperados com açafrão, e que em Palermo são arredondados enquanto em Catânia lembram o formato do Etna (é o formato da nossa coxinha); recheados com ragù ou pistache, revelam a criatividade da ilha.

Para refrescar o calor mediterrâneo, nada melhor que a granita, herança do sherbet árabe feito com neve do Etna, hoje servida com o tradicional brioche col tuppo, como provei no Bam Bar. Cada prato traz no sabor o mosaico de culturas que passaram pela Sicília — árabes, espanhóis, normandos — transformando a cozinha da ilha em um patrimônio de história e prazer.

📐A Trinácria e a Medusa: símbolos da Sicília
Quem visita a Sicília logo se depara com uma imagem curiosa: uma cabeça de mulher cercada por três pernas dobradas. Esse é o Trinácria, o símbolo mais antigo da ilha e que está na bandeira da Sicília.
🔺 As três pernas representam o formato triangular da Sicília, que tem três pontas principais (Messina, Siracusa e Trapani). A figura em movimento sugere vitalidade e eternidade.

👩🦱 No centro está a Medusa, personagem da mitologia grega com cabelos de serpente. Aqui, ela simboliza proteção contra o mal, um amuleto para afastar perigos.
🌾 Muitas vezes, o desenho traz também espigas de trigo, lembrando a fertilidade da terra siciliana, conhecida como “o celeiro do Império Romano”.
Esse emblema, ao mesmo tempo belo e enigmático, expressa bem a alma da Sicília: uma terra de mitos, história e força, que se reinventa sem perder sua identidade.
📅 Roteiro sugerido
🌸 Dia 1 – Chegada e mar
Check-in no hotel. Relaxar na praia do Lido Caparena (do próprio hotel) na Spiaggia Mazzeo. Passeio e jantar no Centro histórico, na Taverna Don Nino (massas típicas e Vinhos do Etna). Encerrar com os cannoli da Roberto – Rey del Cannoli.
🏛️ Dia 2 – Centro histórico e ópera
Caminhar pelo centro histórico: Corso Umberto, lojinhas, ruazinhas floridas. Parada na Piazza IX Aprile para vistas incríveis do mar e do Etna e provar a granita no Bam Bar. À noite: jantar no Bar Timeo no Grand Hotel Belmond Timeo e visita ao Teatro Antico di Taormina para assistir uma ópera (no meu caso, a Carmen).
🌊 Dia 3 – Natureza e sabores
Passeio até Isola Bella: mar cristalino e descanso no Lido Pizzichela. Final da tarde livre para explorar cafés e miradouros. Comemos uma pizza maravilhosa no Ai Paladini, bem em frente à saida da Praia de Isola Bella.
🍝 Onde comer em Taormina
Taverna Don Nino → um clássico de Taormina: simples, acolhedor e delicioso.
Laboratorio Pasticceria Roberto→ parada obrigatória para provar a sobremesa siciliana mais típica, feita com perfeição.
Bar do Grand Hotel Timeo Belmond → ideal para um aperitivo com vista aérea deslumbrante de Taormina. A experiência fica ainda mais especial se combinada com a visita ao Teatro Antico.
Ai Paladini → perfeito para um almoço descontraído depois da praia. A pizza é deliciosa e os arancinis são imperdíveis — o de ragù foi inesquecível.
Don Diego Gelateria → sorvete de pistache cremoso e intenso, daqueles que ficam na memória.
Bar Trinacria → ótima pedida para um café acompanhado de arancinis caseiros e saborosos.
Bam Bar → para provar a granita mais famosa de Taormina.
Pizichella → o lugar perfeito para desfrutar de drinks à beira da praia em Isola Bella e saborear um almoço com vista inesquecível.
✨ Dicas extras: leve sapatos confortáveis — Taormina tem muitas ruas de pedra e ladeira e sapatos de água para entrar no mar (as praias são de pedra e dói muito o pé). Também leve máscara de snorkel, para a praia de Isola Bella, se gosta de fazer snorkel.
