Ontem à noite vivi uma emoção antiga e familiar: assistir ao ballet Giselle no Gran Teatre del Liceu de Barcelona.

Digo “antiga” porque Giselle me acompanha desde a infância — eu assistia ao mesmo VHS repetidas vezes, fascinada pela pureza dos gestos, pelo drama silencioso e pela poesia trágica dessa história. De alguma forma, aquela menina que ficava hipnotizada diante da TV ainda vive em mim — e ontem ela voltou a dançar.

Ser sócia do Liceu é uma das maiores alegrias de morar em Barcelona. Ter acesso a essa casa histórica, sentar-me sob seus lustres dourados e sentir o som da orquestra preencher o ar é um privilégio que nunca deixo de reconhecer.

Como ainda faz bom tempo em Barcelona, aproveitei para conhecer a terraça do Liceu, de onde se tem uma vista encantadora para o centro antigo da cidade. Lá, com uma taça de champagne na mão, vi o entardecer dissolver-se em tons dourados antes do espetáculo começar — um prelúdio perfeito para uma noite que parecia suspensa no tempo.



Criado em 1841, Giselle é um dos ballets românticos mais belos e comoventes. Conta a história da jovem camponesa que morre de amor ao descobrir a traição de Albrecht, o nobre disfarçado que a seduziu. No segundo ato, transformada em Wili — espírito das mulheres traídas que vagam pela noite —, Giselle perdoa o homem que a destruiu, libertando-o da condenação.

É o triunfo do amor sobre a morte.
Enquanto as bailarinas flutuavam sob a névoa azulada do palco do Liceu, senti o mesmo arrepio de quando era criança.

Há algo em Giselle que me atravessa — essa mistura de entrega e força, delicadeza e poder silencioso. É um lembrete de que o amor verdadeiro não se mede pelo que se possui, mas pelo que se liberta.

