A viagem ao Porto teve como objetivo principal a finalização da documentação da nacionalidade portuguesa da minha mãe, mas acabou permitindo também uma imersão no patrimônio histórico da cidade.
Logo na chegada, o primeiro compromisso foi na Loja do Cidadão do Porto, onde é solicitado o Cartão de Cidadão, etapa indispensável após a emissão da certidão de nascimento portuguesa. Embora o procedimento seja direto, requer planejamento, já que o prazo médio para conclusão do pedido e levantamento do cartão é de 3 a 4 dias úteis. Com essa etapa resolvida desde o início, tornou-se possível organizar o restante da estadia com mais tranquilidade, aproveitando o tempo para explorar a cidade sem pressa.

Nosso roteiro pelo Porto foi também uma leitura histórica da cidade, construída passo a passo, entre mercados, igrejas, pontes e mesas bem escolhidas.

Começamos pelo Mercado do Bolhão, inaugurado em 1914 e, por décadas, o principal centro de abastecimento da cidade. O Bolhão sempre foi mais do que um mercado: é um retrato da vida popular portuense. Após a recente reabilitação, manteve a essência original — bancas tradicionais, produtos locais e uma relação direta entre vendedores e clientes.

Seguimos pela Rua de Santa Catarina, principal artéria comercial desde o século XIX, símbolo da expansão urbana fora das antigas muralhas.

No caminho, paramos no histórico Café Majestic, inaugurado em 1921, ícone da Belle Époque portuguesa e antigo ponto de encontro de intelectuais, artistas e políticos.

A poucos minutos dali estão a Igreja e Torre dos Clérigos, obra-prima barroca do arquiteto Nicolau Nasoni, concluída em 1763.

Durante séculos, a torre serviu como referência visual para navegadores que chegavam pelo Douro.

Seguimos para a Estação de São Bento, inaugurada em 1916, onde mais de 20 mil azulejos narram batalhas, cenas rurais e episódios centrais da história de Portugal.

Encerramos a tarde na Livraria Lello, fundada em 1906, cuja escadaria e vitrais refletem a ambição cultural da burguesia portuense do início do século XX.


À noite, voltamos para a área da Igreja dos Clérigos e jantamos no Encaixados. Outro lugar que fomos várias vezes foi a Confeitaria dos Clérigos com ótimos bolinhos de bacalhau e na Manteigaria para excelentes pastéis de nata.

No dia seguinte, começamos com um café tranquilo no Airbnb — ficamos nos Apartamentos Youpro, muito bem localizados, e muito cômodos.


Seguimos novanente para Vila Nova de Gaia, atravessando a icônica Ponte Dom Luís I, inaugurada em 1886 e símbolo da engenharia do ferro. É em Gaia que, desde o século XVII, se consolidou o envelhecimento do vinho do Porto.


Visitamos as caves da Cálem e da Ramos Pinto — esta última com um valor especial para nós, por ser a preferida do meu avô e por ter sido pioneira na modernização da comunicação do vinho português no exterior.




Ao lado, passamos pela Loja da Sardinha Portuguesa e pela Casa Portuguesa do Pastel de Bacalhau para comer, uma vez mais, o tradicional bolinho de bacalhau com queijo da Serra da Estrela, símbolos de como a gastronomia também se transformou em identidade cultural.


O dia terminou com jantar novamente no Mercado do Bolhão, fechando o ciclo entre tradição, música e cidade viva. Ali jantamos no Culto ao Bacalhau, restaurante que propõe uma abordagem contemporânea de um dos maiores símbolos da gastronomia portuguesa. Comemos ali, sem exagero, o melhor bacalhau à Brás da viagem.
A sobremesa surpreendeu: um mil-folhas de bacalhau com creme de gemas, improvável na teoria e extraordinário na execução, mostrando como a tradição pode ser reinventada com respeito e criatividade.


À noite, assistimos a um espetáculo no Ideal Clube de Fado, um dos espaços mais autênticos dedicados ao fado na cidade.

O ambiente intimista e as explicações históricas entre as músicas ajudam a contextualizar o fado como expressão urbana ligada à saudade, ao destino e à vida quotidiana portuguesa, longe de uma leitura meramente turística.

No dia seguinte, voltamos à Vila Nova de Gaia, e fizemos o Passeio das Sete Pontes, que oferece uma leitura única da cidade a partir do Douro, revelando séculos de comércio fluvial e expansão urbana.


Visitamos também o WOW Porto, complexo cultural instalado em antigas caves, exemplo da requalificação contemporânea da zona ribeirinha.


Encerramos o roteiro com almoço na Ribeira, com francesinha e bolinhos de bacalhau — um fechamento simples e direto para uma viagem que equilibrou história, gastronomia e a experiência real do Porto, sem pressa e sem excessos.

Entre burocracia, história e caminhadas, o Porto se mostrou mais uma vez uma cidade onde o passado e o presente convivem de forma natural. Resolver documentos ali não foi apenas uma tarefa prática, mas uma oportunidade de viver a cidade em profundidade — com tempo, contexto e memória.
