Subir ao Tibidabo foi como abrir um portal sobre Barcelona. Pegamos a Cuca de Llum, o funicular moderno que parece deslizar entre o verde da montanha e o dourado da cidade. A cada metro, o vidro panorâmico deixava ver mais horizonte — como se Barcelona se estendesse aos meus pés, em camadas de telhados, mar e sol.

Apesar de ser início do outono, fui bem agasalhada, porque lá em cima o vento sopra com outra temperatura.

Na Área Panorâmica, o tempo desacelerou. Entramos com o bilhete panorâmico e fomos direto ao Carrossel.

O carrossel do Tibidabo, o delicado Giravolt, é daqueles lugares que não se explicam — se sentem. No alto do Parque de Atracciones Tibidabo, enquanto a cidade inteira se abre lá embaixo e o mar aparece ao fundo, ele gira devagar, quase em silêncio, como se o tempo aceitasse diminuir o passo. Não é uma atração de adrenalina, mas de memória: madeira, cores suaves, música leve e a sensação rara de voltar a um lugar interno onde tudo era mais simples. Ali, entre o céu e Barcelona, o carrossel não promete emoção — oferece presença, contemplação e um instante de infância que ainda sabe exatamente onde mora.

O avião vermelho, símbolo do parque, cortava o céu como um brinquedo antigo que ainda acredita em sonhos. A roda-gigante também é outro ponto de destaque.

O Templo Expiatório do Sagrado Coração de Jesus começou a ser construído em 1902 e só foi concluído em 1961, atravessando quase todo o turbulento século XX espanhol. A ideia do templo surgiu como um ato expiatório (daí o nome): no fim do século XIX havia o projeto de transformar o topo do Tibidabo em um hotel-cassino de luxo, o que gerou forte reação da Igreja e de setores conservadores.

Como resposta, decidiu-se erguer ali um templo dedicado ao Sagrado Coração de Jesus, reafirmando o caráter espiritual do ponto mais alto da cidade. A estátua do Cristo no topo, inspirada no Sacré-Cœur de Montmartre (Paris), foi colocada como símbolo de proteção sobre Barcelona.

Construída em etapas, a igreja sobreviveu à Guerra Civil Espanhola, a crises políticas e a mudanças profundas na cidade — e hoje permanece como um marco de fé, resistência e vigilância silenciosa, observando Barcelona do alto, como faz há mais de um século.


Na descida, voltamos pela Cuca de Llum. Barcelona iluminada à noite é pura magia — parecia um colar de ouro derramado sobre o escuro. A vista do funicular é cinematográfica, dessas que a gente guarda na memória.

Terminamos a tarde no Mirablau, com uma taça de cava e uma vista de tirar o fôlego. Fiquei ali, entre o reflexo da luz do sol e o sabor do cava, sentindo que há tardes que curam sem palavras — feitas apenas de luz, silêncio e altura.
