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Revisitando Munique, a capital da Baviera

Munique (München), capital da Baviera, é uma cidade moldada por séculos de poder dinástico, devoção religiosa e cultura artística. Fundada oficialmente em 1158, cresceu sob a proteção dos duques e reis da Casa de Wittelsbach, tornando-se um dos centros políticos e culturais mais influentes do sul da Alemanha. Ao longo do tempo, Munique construiu uma identidade própria: profundamente alemã, mas com forte consciência estética, musical e cerimonial.

A Residenz de Munique foi, por mais de quatro séculos, o palácio urbano dos governantes da Baviera.

Mais do que uma residência, ela é um complexo monumental que reflete a ambição política dos Wittelsbachs, com salões renascentistas, barrocos e neoclássicos.

O Antiquarium, uma das maiores salas renascentistas ao norte dos Alpes, simboliza o ideal humanista de poder ligado à arte e ao conhecimento. Ele está literalmente dentro de um cofre e contém as mais valiosas jóias reais.

Durante o Advento, o pátio da Residenz abriga um mercado de Natal interno, o Weihnachtsdorf im Kaiserhof der Residenz, mais intimista e elegante – o meu preferido da cidade – que dialoga diretamente com o passado aristocrático do local — uma experiência onde arquitetura, silêncio e tradição se encontram.

Ao lado da Residenz está a Odeonsplatz, uma das praças mais simbólicas da cidade. Cercada pela Theatinerkirche e por edifícios de governo, ela foi palco tanto de celebrações reais quanto de episódios turbulentos da história alemã. Aqui, Munique revela sua face política: aberta, monumental e consciente do próprio peso histórico.

A Marienplatz é o centro vital de Munique desde a Idade Média.

Dominada pelo Neues Rathaus, a praça abriga o famoso Glockenspiel, um relógio mecânico do início do século XX que encena cenas da história bávara: torneios medievais e a Schäfflertanz (dança dos tanoeiros), criada após uma epidemia de peste como símbolo de renascimento urbano.

O relógio não é apenas decorativo — ele reforça a ideia de memória coletiva encenada diariamente no coração da cidade.

A Frauenkirche de Munique, com suas icônicas torres de cúpula em forma de cebola, é o principal símbolo visual da cidade.

Construída no século XV, ela expressa a sobriedade gótica bávara e funciona como ponto de orientação urbano e espiritual.

Munique preserva até hoje limites de altura no centro histórico para que nada ultrapasse visualmente a Frauenkirche — um gesto claro de respeito à sua centralidade simbólica.

No inverno, Munique se transforma. Além do mercado tradicional da Marienplatz e do Residenz, faz alguns anos que existe o Mercado Medieval de Natal de Munique, realizado na Wittelsbacherplatz.

Ali, não há luzes modernas nem música amplificada: o ambiente recria uma feira medieval, com trajes de época, tochas, artesanato e receitas históricas, oferecendo uma imersão sensorial no passado germânico. É obrigatório tomar um Feuerzangenbowle na taça de cerâmica medieval.

Feuerzangenbowle

Como em todos os mercados da Alemanha, quando você compra uma bebida, além do seu valor é preciso pagar um Pfand, ou seja, um depósito pelo copo que tem duas finalidades: a primeiro é evitar que você o jogue no chão depois de utilizá-lo e assim manter a limpeza do lugar, e, a segunda, permitir que você leve o copo para casa, como lembrança, se quiser. Se não quiser, basta devolver o copo na barraca que você comprou, ou muitas vezes, em qualquer barraca daquele mercado e eles te devolvem o dinheiro do depósito. As xícaras de vinho quente, em 2025, valiam 5€ e a taça medieval 10€.

A Hofbräuhaus, fundada em 1589 como cervejaria da corte, é um dos espaços mais emblemáticos da cultura bávara. Aqui, cerveja, música e convivência se misturam em longas mesas coletivas.

A banda está sempre lá, esta foi a terceira cez que fui, e segue valendo muito a pena. Eu adoro!

O pretzel bávaro (Brezn), presença constante nas festas alemãs, tem origem ligada aos fornos monásticos medievais. Seu formato entrelaçado é associado à simbologia cristã (braços cruzados em oração) e sua crosta escura resulta do banho alcalino que dá sabor e textura característicos. Em Munique, o pretzel não é acompanhamento: é identidade cultural e salgado na medida para combinar com muita cerveja.

Na Hofbräuhaus, eles são vendidos por mulher vestida a caráter, com o tradicional Dindrl, que circulam pelo local.

A Ópera Estatal da Baviera, sediada no Nationaltheater de Munique, é uma das mais importantes casas de ópera da Europa.

Assistir ali a Hänsel und Gretel, de Engelbert Humperdinck, é mergulhar no romantismo alemão: uma ópera inspirada nos contos dos Irmãos Grimm, que combina inocência, folclore e profundidade musical. Tem que comprar os ingressos com antecedência, pelo site da Bayerischen Staatstheater, e, depois de uns dias, eles te enviam um e-mail, confirmando ou não, a existência das entradas, e, no caso positivo, as entradas anexas.

Os preços das entradas em Munique surpreendem positivamente — especialmente quando comparados aos da Gran Teatre del Liceu em Barcelona. Isso ocorre porque, na Alemanha, a ópera é tratada como bem público e política cultural, não como entretenimento de elite.

A Ópera Estatal da Baviera recebe forte subsídio do governo regional e do Estado, o que permite manter ingressos acessíveis para diferentes camadas da população – da primeira vez que fomos à Ópera em Munique, em 2011, pagamos módicos 5€, e, desta cez, para a priemira fila, pagamos 50€ por pessoa, enquanto que no Gran Teatre del Liceo, a mesma entrada sairia por uns 250€.

O objetivo não é apenas preservar a cultura, mas garantir que ela seja vivida — formando público, educação musical e continuidade artística. Em Munique, a ópera faz parte da vida urbana, e não de um circuito restrito, o que se reflete diretamente nos preços.

Com relação à hospedagem, desta vez escolhemos o Domus Hotel e gostamos bastante. Confortável e perto de tudo caminhando.

Café da manhã no Domus Hotel

No contexto do Advento, a obra ganha um significado especial — infância, proteção e travessia, temas que dialogam com o espírito do inverno europeu.

Munique é uma cidade que não separa poder de cultura, nem tradição de vida cotidiana. Palácios, praças, mercados, cervejarias e ópera formam um mesmo tecido histórico, onde o passado não é encenado como museu, mas vivido com naturalidade. É essa continuidade — sólida, elegante e profundamente alemã — que faz de Munique uma das cidades mais completas da Europa.

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