(Monistrol de Montserrat 2023/26, Abrera 2023, Terrassa 2026)
Na Catalunha, o Natal não termina no dia 25. Ele fica em suspensão, como uma respiração contida, até a noite de 5 de janeiro, quando as ruas se enchem de luz, crianças apertam cartas nas mãos e os Reis Magos finalmente chegam. A “Cavalcada de Reis” não é apenas um desfile: é o momento em que a infância ocupa o espaço público e a cidade aceita, sem constrangimento, acreditar em magia mais uma vez.

A “Cavalcada de Reis” tem origem no século XIX, quando as cidades começaram a encenar publicamente a chegada dos Reis do Oriente para marcar a Epifania. Na Catalunha, a tradição ganhou força e identidade própria: os Reis não aparecem de forma abstrata — eles entram na cidade, percorrem ruas conhecidas, recebem cartas, falam com as crianças.

Aqui, os Reis vêm acompanhados de seus pajes (ajudantes), responsáveis por recolher as últimas cartas e garantir — ao menos simbolicamente — que cada pedido chegue ao destino certo. O gesto é simples, mas poderoso: escrever, entregar, esperar.

Há algo muito catalão nessa festa. Mesmo com música, carros alegóricos e doces, o tom costuma ser afetivo, não exagerado. A rua se enche de famílias, avós, vizinhos.

Depois do desfile, a noite segue em casa, com mesa posta e expectativa contida. Porque o verdadeiro desfecho vem no dia seguinte.
6 de janeiro: presentes… e o “Roscón de Reyes”.

Na manhã do dia 6, chegam os presentes — e o Roscón de Reyes, bolo em forma de coroa, decorado com frutas cristalizadas. Dentro dele, dois símbolos escondidos:
a fava → quem encontra, paga o roscón; a figurinha → quem acha, vira rei ou rainha do dia.
É um ritual simples, repetido ano após ano, que transforma o café da manhã em jogo, riso e memória compartilhada.
Monistrol de Montserrat (2023-2026)
Em Monistrol de Montserrat, a Cavalcada tem um tom especial. Talvez pela escala da vila, talvez pela presença constante da montanha, tudo parece mais próximo. As crianças reconhecem os rostos, os pais se cumprimentam, os Reis passam a poucos metros.

Gosto dessa versão porque ela não tenta competir com grandes cidades. Aqui, a Cavalgada é de bairro ampliado: íntima, calorosa, verdadeira.

A sensação é de que a vila inteira participa de um mesmo acordo silencioso de encantamento. A gente assiste da sacada e os Reis atiram balas para gente.


Abrera (2023): festa compartilhada
Em Abrera, a “Cavalcada” assume um caráter mais aberto e comunitário. Tem show e o desfile percorre áreas centrais, reunindo famílias de diferentes bairros, com uma energia viva e participativa.

É uma festa que mistura tradição e modernidade, mantendo o foco no essencial: a experiência das crianças.

Abrera mostra bem como a Cavalcada se adapta a cada lugar sem perder o sentido. O formato muda; o gesto permanece.

Terrassa (2026)
Já em Terrassa, a Cavalcada ganha escala maior. Mais gente, mais luz, mais carros alegóricos. Ainda assim, o ritual não se perde.

Os Reis continuam acessíveis, as cartas continuam sendo recolhidas, e o silêncio atento das crianças quando os Reis passam continua sendo o mesmo.

Imaginem que os Reis, em Terrassa, chegam de helicóptero!

Terrassa prova que mesmo em cidades maiores, a Cavalcada não vira apenas evento: ela segue sendo promessa. Nós ficamos na Rambla d’Egara.

Como a cidade é a maior das três, a festa tem mais magnitude, com muitos carros alegóricos e muita gente!


Seja em Monistrol, Abrera ou Terrassa, a Cavalcada dos Reis compartilha algo essencial: ocupa a rua como espaço simbólico, coloca as crianças no centro, reforça a ideia de espera, não de consumo imediato, e termina sempre à mesa, com roscón, café e histórias repetidas.

Talvez seja isso que a torne tão resistente ao tempo. Em um mundo apressado, a Cavalcada ainda ensina a esperar.
