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Pamplona: história, centro histórico e a tradição dos touros na capital de Navarra

Pamplona é uma cidade onde a história não está apenas preservada — ela continua em movimento. Fundada sobre antigas raízes romanas e moldada por séculos de disputas, fé e rituais coletivos, a capital de Navarra revela no seu centro histórico uma das identidades urbanas mais intensas da Espanha.

Pamplona nasceu no século I a.C., quando o general romano Pompeu estabeleceu a cidade de Pompaelo sobre um antigo assentamento basco. Sua localização estratégica — entre a Península Ibérica e a Europa continental — fez com que a cidade se tornasse um ponto-chave militar, comercial e religioso ao longo dos séculos.

Durante a Idade Média, Pamplona consolidou-se como um núcleo fortificado essencial no Reino de Navarra. As muralhas, ainda parcialmente preservadas e visitáveis, protegiam a cidade de invasões e hoje oferecem uma leitura clara do seu passado defensivo, além de vistas privilegiadas sobre o rio Arga.

O Casco Antiguo de Pamplona é um emaranhado de ruas estreitas, praças recolhidas e edifícios que contam histórias silenciosas. É aqui que a cidade pulsa com mais autenticidade.

A Plaza del Ayuntamiento, de fachada barroca, é o epicentro simbólico da cidade. Todos os anos, é da sua varanda que se lança o chupinazo, o foguete que marca o início das festas de San Fermín. Ao redor, bares históricos, igrejas e pequenas lojas criam uma atmosfera que mistura vida cotidiana e memória coletiva.

Caminhar pelo centro histórico é perceber como Pamplona manteve sua escala humana, resistindo à descaracterização e preservando sua identidade ao longo dos séculos.

Entre as paradas obrigatórias no centro histórico de Pamplona está o Café Iruña, um clássico que combina tradição, arquitetura e vida local.

Café Iruña

Fundado no final do século XIX, o café preserva até hoje sua impressionante decoração neo-mudéjar, com azulejos, arcos e detalhes que remetem à herança árabe da Espanha.

Frequentado por moradores e visitantes, o Iruña é um desses lugares onde o tempo desacelera: mesas ocupadas por conversas longas, pintxos no balcão e, como manda o costume local, uma taça de vinho tinto jovem da região, de cor vermelha viva e servido levemente fresco, acompanhando a rotina da cidade.

A estrelada Calle Estafeta, à noite, revela uma Pamplona mais íntima e cotidiana. Famosa por integrar o trajeto do encierro durante San Fermín, fora do período festivo a rua assume outro ritmo: calçamento brilhando após a chuva, luzes refletidas no chão e um fluxo constante de pessoas que caminham sem pressa, conversam em pequenos grupos e ocupam o espaço urbano como extensão da casa. Estreita, viva e profundamente social, a Estafeta não é apenas um cenário histórico — é uma rua que continua acontecendo, noite após noite, no compasso natural da cidade.

Entre os bares que melhor traduzem a criatividade gastronômica de Pamplona hoje está o Baserriberri. Conhecido por reinventar o conceito de pintxo (tapas ou pequenas porções) sem perder o vínculo com a identidade navarra, o bar ganhou destaque ao vencer a Semana del Pincho de Navarra 2025, consolidando-se como referência local.

Um dos grandes atrativos da casa é o menu-degustação em formato de linha do tempo, no qual cada pintxo representa um ano diferente do concurso — uma forma lúdica e saborosa de percorrer a evolução criativa da cozinha do bar.

Agora, falando de touros, a relação de Pamplona com eles é antiga e profundamente simbólica. Desde a Idade Média, os animais eram conduzidos desde os currais fora das muralhas até a praça central, onde aconteciam as corridas e celebrações.

Esse percurso deu origem ao encierro, hoje mundialmente conhecido. O trajeto atravessa o centro histórico e termina na Plaza de Toros de Pamplona, uma das maiores arenas de touros do mundo, inaugurada em 1922.

A gastronomia de Pamplona reflete a força do território navarro, onde a carne ocupa papel central. Cortes bovinos de alta qualidade, preparados de forma simples, e a cecina, carne curada e defumada de sabor intenso, são heranças diretas da tradição rural da região.

Chuletón

O conjunto se completa com os queijos artesanais, sobretudo os produzidos a partir de leite de ovelha, com destaque para o Queso Idiazábal, de textura firme e notas defumadas, amplamente consumido em Navarra e no País Basco.

Nós fomos ao restaurante Chez Belagua que nos proporcionou uma aula sobre os vinhos da região do norte da Espanha, e, mais especificamente, de Navarra.

No norte da Espanha, entre os Pireneus e o vale do Ebro, existe uma região vinícola que desafia rótulos fáceis. Navarra não é uma única paisagem, nem um único estilo de vinho — e é justamente por isso que seu mapa é tão revelador.

Ao contrário de regiões mais homogêneas, Navarra se organiza como um mosaico de subzonas, cada uma influenciada por altitude, clima e proximidade com o Atlântico ou com áreas mais quentes do interior. O resultado é uma diversidade rara: rosés frescos, brancos de alto nível e tintos estruturados convivem dentro do mesmo território.

O mapa vinícola da região mostra essa lógica com clareza. Ao norte e nordeste, áreas mais elevadas e frescas, próximas aos Pireneus, favorecem vinhos leves e aromáticos. Mais ao centro, surgem zonas de equilíbrio, onde frescor e estrutura se encontram. Ao sul, o clima mais quente permite tintos de guarda, intensos e profundos.

Nós privamos quatro vinhos que contavam três histórias diferentes:

Casa La Sierra – Guerinda Rosado Garnacha 2024 | Baja Montaña

Navarra é historicamente famosa por seus rosados — mas os tempos mudaram. O Guerinda Rosado mostra a versão contemporânea da tradição: um rosé seco, elegante e extremamente gastronômico.

Produzido com Garnacha na subzona de Baja Montaña, uma das mais frescas da região, o vinho apresenta aromas de morango fresco, framboesa e flores delicadas. É o tipo de vinho que acompanha pintxos, pratos leves e tardes longas, sem nunca cansar.

Arínzano Hacienda Chardonnay | D.O.P. Pago de Arínzano

Aqui, Navarra revela seu rosto mais ambicioso. O Arínzano Hacienda Chardonnay nasce em um Pago — categoria máxima do vinho espanhol, reservada a vinhedos únicos com identidade própria.

O resultado é um Chardonnay de grande elegância: fruta branca madura, mineralidade marcada, madeira sutil e um equilíbrio que remete a grandes brancos internacionais, sem perder o caráter local. É um vinho que prova que Navarra não apenas acompanha tendências globais, mas sabe reinterpretá-las com personalidade.

Chivite Colección 125 – Vino de Guarda 2019

Se os dois primeiros vinhos mostram frescor e precisão, o Colección 125 revela o lado mais clássico e profundo de Navarra. Produzido por uma das famílias mais tradicionais da região, este é um vinho pensado para envelhecer. Este foi o vinho que eu mais gostei.

No copo, surgem notas de frutas maduras, especiarias, madeira bem integrada e uma estrutura firme, mas elegante. É um vinho de conversa longa, de mesa posta, de inverno. Representa a Navarra que olha para sua história sem nostalgia, com domínio técnico e identidade clara.

Kimera Garnatxa | Navarra – Garnacha em estado livre

Se os vinhos clássicos de Navarra contam a história da região, o Kimera Garnatxa mostra para onde ela está indo.

Produzido a partir de Garnacha, uva emblemática do norte da Espanha, o Kimera adota uma abordagem mais moderna e autoral, uma nova geração de produtores de Nacarra.

No copo, apresenta fruta vermelha viva, notas de cereja e framboesa, um leve toque terroso e acidez marcante.

Para encerrar a refeição, optamos por uma das sobremesas mais clássicas de Navarra: as milhojas de crema. Também típica, e igualmente boa, é a torrija, ou a nossa rabanada.

Com relação à hospedagem, fiquei no Castillo de Gorraiz Hotel & Spa destaca-se como uma das opções mais exclusivas de hospedagem nos arredores de Pamplona. Integrado ao Campo de Golf de Gorraiz, o hotel combina a tranquilidade de um ambiente natural com serviços de padrão elevado.

Os quartos, muitos deles com terraço e vista direta para o campo, reforçam a sensação de isolamento e calma, rara em hotéis urbanos.

Localizado no bairro de Gorraiz, a zona é conhecida por concentrar residentes estrangeiros, executivos e famílias expatriadas, sendo considerada uma das áreas de maior qualidade de vida da região.

Essa combinação de hotelaria discreta, natureza e ambiente expat faz do Castillo de Gorraiz uma alternativa clara ao centro histórico — menos turística, mais residencial e voltada a quem prefere vivenciar Pamplona com distância, silêncio e estrutura.

Da primeira vez que fomos, ficamos em pleno centro histórico, no Hotel Tres Reyes, muito bom também.

Fomos de carro desde Barcelona, em um trajeto de aproximadamente cinco horas. A viagem também serviu para testar a autonomia do novo Tavascan, totalmente elétrico, e o resultado foi bastante positivo: precisámos parar apenas uma vez para recarregar durante todo o percurso. Em um ponto de carga super-rápida, bastaram cerca de 25 minutos para atingir 80% de bateria, autonomia mais do que suficiente para seguir viagem com tranquilidade. Essa faixa de carga é, inclusive, a recomendada para preservar a vida útil da bateria, já que o carregamento entre 80% e 100% é significativamente mais lento e menos eficiente.

Chegamos justo a tempo para as várias reuniões que tínhamos previstas sobre a Península Ibérica. Foram dias intensos de trabalho, mas, como se pode ver, ainda assim conseguimos reservar tempo no final de cada dia para explorar um pouco do centro histórico da cidade.

Pamplona é, acima de tudo, um lugar de permanência: de pedra, de memória e de identidade bem definida. Seu centro histórico e a área dos touros não são atrações isoladas, mas partes de um mesmo organismo urbano que atravessou séculos sem perder coerência.

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