Acordamos cedo para o segundo dia na Islândia, com aquela sensação de expectativa silenciosa que o inverno traz. Depois do café da manhã, saímos do hotel entre 8h e 9h, seguindo as orientações do guia, que sempre ajusta o roteiro de acordo com o clima e as condições da estrada. Aqui, nada é rígido — a natureza dita o ritmo, e nós aprendemos a escutar.

A primeira parada foi na Reynisfjara Black Sand Beach é um daqueles lugares que impõem respeito imediato. A areia negra, formada por lava vulcânica moída ao longo de séculos, absorve a luz e cria um contraste absoluto com o branco da neve e o cinza do céu islandês.

Nada ali é suave: o vento corta, o mar ruge e as ondas do Atlântico Norte avançam com força imprevisível. Caminhar pela praia é perceber que a Islândia não foi feita para ser domesticada — apenas observada, à distância certa.

Além da paisagem quase irreal, Reynisfjara carrega camadas de mito e geologia. As colunas de basalto que se erguem junto ao penhasco — perfeitamente geométricas — são resultado do resfriamento lento da lava, mas o folclore local prefere outra explicação: dizem que os pilares são trolls transformados em pedra ao serem surpreendidos pelo sol.
Ao fundo, os rochedos de Reynisdrangar emergem do mar como sentinelas, reforçando o clima dramático do lugar. É uma praia que não convida ao descanso, mas à contemplação — um lembrete poderoso da origem vulcânica da Islândia e da força constante que molda sua paisagem.

O ponto alto do dia foi caminhada no gelo acontece no Falljökull, um dos braços do gigantesco Vatnajökull, o maior glaciar da Europa. Só essa informação já muda a percepção do lugar: estamos pisando em uma massa de gelo que cobre cerca de 8% do território islandês e que guarda, compactadas em camadas, centenas — às vezes milhares — de anos de história climática.

Depois de vestir os crampons, capacete e receber as instruções do guia certificado, damos os primeiros passos sobre o glaciar. E tenho que dizer, nosso guia, Eli (@trollexpeditions) era incrível!


O gelo não é branco como imaginamos: ele varia entre tons de azul profundo, cinza e quase transparente. Esse azul intenso existe porque o gelo antigo é tão comprimido que absorve quase todas as cores da luz, refletindo apenas o azul — um detalhe simples, mas impressionante quando visto de perto.

O Falljökull é conhecido como um glaciar de saída (outlet glacier), ou seja, ele “escorre” lentamente a partir da grande massa do Vatnajökull em direção ao vale. Esse movimento é quase imperceptível no dia a dia, mas constante. O gelo avança, recua, racha e se reconstrói o tempo todo. As fendas que atravessamos são resultado dessa pressão interna, somada ao degelo sazonal e à força da gravidade.

Caminhar ali é, ao mesmo tempo, belo e desconcertante. O silêncio é profundo, quebrado apenas por estalos ocasionais — o som do gelo se movendo. O guia explica que como esses glaciares estão em constante transformação, algumas áreas por onde caminhamos hoje simplesmente não existirão da mesma forma no futuro. Isso transforma a experiência em algo mais do que paisagem: é também testemunho.

Há uma sensação muito clara de escala. Pequenos diante da vastidão do gelo, entendemos que aquela superfície não é estática nem eterna.

O glaciar é vivo, frágil e poderoso ao mesmo tempo. Caminhar sobre o glaciar não é apenas uma atividade física — é um encontro direto com o tempo, comprimido sob os nossos pés. E tem que ser no inverno, com pouquíssima gente e um silêncio renovador.

No fim do dia, voltamos exaustas ao nosso hotel rural, o The Drangshlíð Inn by Ourhotels onde jantamos e esperamos pela Aurora Boreal.



Como o hotel fica em um ligar afastado de qualquer luz artificial, depois do jantar, o guia nos avisou sobre as chances de ver a aurora boreal naquela noite. Saímos do hotel em silêncio, olhos voltados para o céu, esperando algum sinal. Não há promessa — apenas a possibilidade. E, curiosamente, isso torna a espera ainda mais bonita.
Este foi um daqueles dias que definem a Islândia: intenso, físico e profundamente contemplativo. Um dia em que caminhamos sobre o gelo, sentimos a força da água e terminamos olhando para o céu, com a sensação clara de que somos pequenos diante de tudo isso.
