Reykjavik foi a primeira cidade que visitamos na Islândia. A capital mais ao norte do mundo (entre Estados soberanos) parece pequena à primeira vista, mas guarda uma história enorme: de fazenda viking a centro político e cultural de um país que aprendeu a se reinventar muitas vezes.

O nome Reykjavík significa algo como “baía esfumaçada” por causa do vapor geotérmico que sobe naturalmente, lembrando a todo momento que a Islândia está viva por baixo dos seus pés.
O primeiro assentamento na Islândia data de 830, mas foi somente em Þingvellir, no ano 930, que nasceu o Alþingi, considerado um dos parlamentos mais antigos do mundo ainda em funcionamento.

Ao longo dos séculos, a Islândia passou por domínios estrangeiros, especialmente o norueguês e o dinamarquês. O Alþingi deixou de se reunir em Þingvellir no final do século XVIII, mas o lugar nunca perdeu seu peso simbólico.
Quando a Islândia caminhou para sua independência no século XX, foi natural que Þingvellir voltasse ao centro da história. Em 17 de junho de 1944, data que marca a proclamação da República da Islândia, Þingvellir foi escolhido como palco oficial da cerimônia, mas Reykjavik já era — e continuou sendo — o centro político e administrativo que organiza o país.

Reykjavik não é uma capital de arranha-céus — é uma capital de identidade e isso já se nota no caminho do aeroporto até o centro.

A cidade é o núcleo da Região da Capital e concentra uma parcela enorme da população islandesa. Em 1º de janeiro de 2025, a população do município estava em torno de 138.772 habitantes.
E aí está o charme: por ser “compacta”, Reykjavik dá para sentir a pé — e isso combina com a história dela. Você atravessa bairros, lago, porto e ruas centrais percebendo como a cidade cresceu por camadas: ela nasceu do vapor, cresceu com o comércio, amadureceu na política e se consolidou como vitrine cultural — sem perder essa estética minimalista e um pouco “fim do mundo” que a gente só entende quando está lá.

À beira do porto, a Harpa representa a Reykjavik contemporânea. Ela ficava bem em frente ao nosso hotel, o Center Hotels Arnarhvoll, onde há um ponto de ônibus em que param os transfer para os tours. O hotel é bem central e excelente, e ótimo porque é um dos poucos pontos do centrinho acessíveis por carro, o que ajuda muito, principalmente no inverno.

Voltando à Harpa, inaugurada em 2011, o edifício de vidro reflete o céu, o mar e a luz islandesa em constante mudança. Mais do que uma sala de concertos, ela simboliza o momento em que a cidade assumiu sua vocação cultural e arquitetônica com ousadia — mesmo após a crise financeira que marcou o país em 2008.

Ao lado, também à beira-mar, o Sun Voyager (Sólfar) não é um monumento viking histórico, mas um símbolo poético: um barco voltado para o horizonte, representando descoberta, esperança e movimento. Em dias claros, com o Monte Esja ao fundo, o cenário ajuda a entender a relação íntima entre Reykjavik e o Atlântico Norte.

O porto antigo guarda a memória mais prática da cidade: pesca, comércio e sobrevivência. Hoje, mistura barcos tradicionais, cafés, restaurantes e saídas para observação de baleias. É um dos melhores lugares para sentir como Reykjavik cresceu sem romper totalmente com suas origens marítimas.

Adentrando o centro, seguimos caminhando até a Laugavegur, a espinha dorsal de Reykjavik. Pelo caminho, paramos na Brauð & Co para provar seus irresistíveis cinnamon rolls — simplesmente imperdíveis. Assados praticamente na hora, mal chegam à vitrine antes de desaparecerem, tamanha a procura. Sem exagero: foram os melhores que já provei.

Os cinnamon rolls são onipresentes na Islândia por influência direta da cultura escandinava e pela forte tradição do café. Em um país de clima frio, sabores quentes e reconfortantes fazem parte do cotidiano — e poucas coisas cumprem esse papel tão bem quanto um cinnamon roll recém-saído do forno. Em Reykjavík, padarias artesanais transformaram esse clássico nórdico em quase uma identidade local.

Seguimos então para a Reykjavík Roasters, levando nossos cinnamon rolls, e ali provamos um café com leite excepcionalmente cremoso — reflexo da qualidade do leite islandês, famoso por sua pureza e textura mais encorpada.

Ao chegar à Laugavegur vimos que ela concentra cafés, lojas de design, restaurantes e boutiques, mas sua origem é bem mais simples: o nome vem de laug (banho quente) e vegur (caminho). Era por ali que os moradores caminhavam até as fontes termais para lavar roupas — quando a cidade ainda era pequena, funcional e profundamente ligada à geotermia.

Com o crescimento urbano, a Laugavegur se transformou na principal artéria comercial da capital. Caminhar por ela é perceber como Reykjavik mistura vida cotidiana, estética minimalista e memória prática. Não é uma rua monumental; é uma rua viva, que reflete a escala humana da cidade.

Bem no início da rua, visível de praticamente qualquer ponto da capital, a Hallgrímskirkja é o grande marco simbólico da cidade. Sua arquitetura foi inspirada nas colunas de basalto formadas por erupções vulcânicas — uma tradução direta da paisagem islandesa para a linguagem religiosa.


Entre as vitrines contemporâneas, uma parada é quase obrigatória: a Handknitting Association of Iceland. Fundada em 1946, a associação nasceu com um objetivo muito claro: proteger o artesanato tradicional islandês e garantir renda às mulheres que tricotavam em casa no pós-guerra.

As tradicionais blusas de lã islandesas (conhecidas mundialmente como lopapeysa) não são tão antigas quanto parecem. Embora a criação de ovelhas exista desde a chegada dos vikings, o design circular característico no peito e nos ombros surgiu apenas no século XX, especialmente entre as décadas de 1940 e 1950.

O desenho nasceu como resposta a necessidade de funcionalidade térmica (o padrão mais fechado protege o tronco do vento); desejo de criar uma identidade nacional própria, após séculos sob domínio estrangeiro; influência tanto de motivos tradicionais nórdicos quanto de padrões gráficos modernos.

Cada padrão geométrico remete à paisagem islandesa: neve, lava, ondas e montanhas. A lã utilizada, chamada lopi, é pouco processada, mantendo suas fibras naturais — o que explica o calor intenso, mas também a textura mais rústica.
Na primeira noite, jantamos no Skál!, um dos endereços mais interessantes de Reykjavík, conhecido por reinterpretar a culinária islandesa com ingredientes locais e muito respeito à sazonalidade.

Provamos a truta salmonada (artic char), cordeiro e uma ostra absolutamente memorável — sabores precisos, intensos e autênticos. Também provamos o vinho islandês e aprovamos.




Ao sair do restaurante, no primeiro e único dia em que isso aconteceu durante nossa estadia, fomos surpreendidos por um presente raro: a aurora boreal apareceu no próprio centro de Reykjavík, tingindo o céu de verde e transformando uma noite já especial em algo verdadeiramente inesquecível.

É importante saber que a Islândia é conhecida por ser um dos destinos mais caros da Europa, especialmente quando se trata de comida e bebida alcoólica.

Isso se explica pela forte dependência de importações, pelos altos custos de transporte até a ilha e pelos salários elevados, que impactam diretamente os preços em restaurantes e bares. No caso do álcool, os valores sobem ainda mais devido aos impostos elevados e ao controle estatal da venda de bebidas, permitido apenas em lojas governamentais. Na Islândia, comer e beber fora pode pesar no orçamento, mas a qualidade dos ingredientes, o cuidado no preparo e o contexto social ajudam a entender o custo da experiência.
Em resumo, Reykjavík é uma cidade que surpreende em cada detalhe. Capital da Islândia, combina paisagens naturais impressionantes com uma cena urbana vibrante, marcada por cafés artesanais, padarias locais e ruas cheias de personalidade. Em Reykjavík, o cotidiano se mistura à viagem, transformando pequenos momentos em memórias inesquecíveis.
