Capital administrativa do País Basco, Vitória-Gasteiz é uma cidade que surpreende pela elegância silenciosa, pelo cuidado urbano exemplar e por uma história que atravessa séculos sem perder autenticidade.
Diferente de Bilbao ou San Sebastián, Vitória se revela aos poucos — e talvez por isso conquiste tanto quem gosta de caminhar sem pressa, observando detalhes, fachadas e praças vividas.
Em maio de 2025 tive a oportunidade de conhecê-la, em uma viagem de trabalho para fazer um benchmarking com os colegas da Mercedes-Benz. Era uma das cidades que eu mais queria conhecer porque é terra natal de uma grande amiga.

Vitória-Gasteiz nasceu oficialmente em 1181, quando o rei Sancho VI de Navarra fundou a cidade fortificada sobre um antigo povoado chamado Gasteiz. Sua localização estratégica entre a Meseta castelhana e a costa cantábrica fez com que a cidade se tornasse um importante ponto comercial e militar na Idade Média.
Ao longo dos séculos, Vitória manteve um crescimento equilibrado, preservando seu centro histórico medieval e expandindo-se de forma planejada — característica que mais tarde lhe renderia reconhecimento internacional como uma das cidades mais sustentáveis da Europa.

O coração histórico da cidade é conhecido como Casco Viejo, ou “La Almendra”, por causa de seu formato amendoado. Aqui, ruas estreitas e inclinadas preservam o traçado medieval original, com casas antigas, varandas floridas e pequenos bares tradicionais. Caminhar por essa área é voltar no tempo, especialmente nas ruas Herrería, Zapatería e Correría, que ainda conservam os nomes das antigas corporações de ofício. O clima da cidade é encantador, parece clima de cidade do interior de São Paulo, mas com tudo o que uma cidade européia pode oferecer.

A Catedral de Santa María é um dos grandes símbolos da cidade. Construída no século XIII, ela ficou famosa pelo inovador projeto de restauração “aberta”, que permite aos visitantes acompanhar de perto os trabalhos arqueológicos e estruturais. Diz-se que o processo inspirou Ken Follett a escrever Os Pilares da Terra. A visita guiada é altamente recomendada para compreender a complexidade histórica e arquitetônica do edifício.

Principal praça da cidade e ponto de encontro dos moradores, a Plaza de la Virgen Blanca marca a transição entre o centro histórico e a cidade moderna. É aqui que acontecem as grandes celebrações, especialmente durante as festas de La Blanca, em agosto. Cafés e bares ao redor fazem da praça um ótimo lugar para observar o ritmo local.
Vitória-Gasteiz também guarda histórias menos oficiais. Durante a ocupação napoleônica, José Bonaparte, irmão de Napoleão e rei imposto à Espanha, viveu na cidade e, segundo a tradição local, manteve aqui uma amante. José Bonaparte ficou conhecido na Espanha por dois apelidos pouco elogiosos: Pepe Botella (pela fama de beber demais), e por seu gosto pela vida confortável… e pelas amantes.
Diz-se que algumas transformações urbanas — como a abertura de ruas e a demolição de trechos das muralhas — teriam sido aceleradas para facilitar seus deslocamentos discretos. Verdade histórica ou lenda urbana, o episódio revela como até as paixões deixaram marcas no traçado elegante e silencioso da cidade.


Partes das antigas muralhas ainda podem ser vistas ao redor do Casco Viejo. Elas lembram o passado defensivo da cidade e oferecem perspectivas interessantes sobre a organização urbana medieval.

Vitória-Gasteiz também é conhecida por sua forte tradição gastronômica. No centro histórico, bares servem pintxos clássicos e criativos, acompanhados de vinhos da Rioja Alavesa, produzidos a poucos quilômetros dali. Diferente de cidades mais turísticas, aqui o ambiente é genuinamente local, com mesas ocupadas por moradores e conversas animadas ao fim do dia.



Entre as tradições doces, a cidade guarda um verdadeiro símbolo local: a Confitería Goya, a confeitaria mais antiga e emblemática de Vitória-Gasteiz.

Fundada no século XIX, ela mantém receitas que fazem parte da memória afetiva da cidade. Suas sapatillas, feitas com pão-de-ló leve e macio são simples e delicadas, e representam bem o estilo local: sem excessos, mas cheias de identidade.




A Goya também é famosa pelos Vasquitos y Nesquitas, que son bombones y dulces tradicionales de la confitería Confituras Goya de Vitoria-Gasteiz, famosos desde los años 20, que consisten en pequeños cuadrados de chocolate rellenos, siendo los Vasquitos de sabor a naranja y frutos secos (praliné oscuro) y las Nesquitas de toffee y leche con frutos secos, ambos muy apreciados en España. Mais do que um lugar para comprar doces, a confeitaria funciona como um pequeno arquivo vivo da cultura gastronômica vitoriana.




Vitória-Gasteiz prova que boa comida não precisa ser exuberante para ser memorável. Aqui, o sabor está na constância, na técnica e no respeito às tradições — um reflexo fiel do caráter discreto e elegante da cidade.
Uma capital discreta, elegante e surpreendente, que prova que nem sempre os destinos mais comentados são os que ficam mais tempo na memória.
