No coração de La Rambla, entre o fluxo constante da cidade e a herança cultural catalã, ergue-se o Gran Teatre del Liceu, um dos teatros de ópera mais importantes da Europa. Mais do que um edifício histórico, o Liceu é um organismo vivo: atravessou incêndios, reconstruções e transformações sociais sem nunca perder sua centralidade na vida cultural de Barcelona.

Fundado em 1847, o Liceu nasceu ligado à burguesia catalã e ao desejo de afirmar Barcelona como capital cultural europeia. Diferente de outros grandes teatros financiados pela realeza, o Liceu sempre teve uma relação mais cívica e urbana com a cidade.

Após dois grandes incêndios — o mais recente em 1994, que destruiu quase totalmente o interior — o teatro foi reconstruído com rigor histórico e tecnologia de ponta, reabrindo em 1999 como símbolo de resiliência cultural.

Hoje, o Liceu combina a elegância do século XIX com infraestrutura moderna, mantendo sua acústica excepcional e uma programação que dialoga com o presente.

O Gran Teatre del Liceu organiza sua programação anual em diferentes tipos de temporada, refletindo uma visão ampla e contemporânea das artes cênicas. O eixo central é a temporada de ópera, que reúne grandes títulos do repertório e novas produções, acompanhada pela temporada de dança e ballet, com companhias internacionais e obras clássicas e contemporâneas.
O teatro mantém ainda uma temporada de concertos e recitais, dedicada a grandes vozes e repertórios sinfônicos e камерísticos, além de projetos especiais como o Liceu para Crianças, iniciativa pedagógica que aproxima o público infantil da ópera e da música clássica de forma lúdica e acessível.
O calendário se completa com eventos emblemáticos, como o Grande Concerto de Ano Novo, que se tornou um ritual cultural da cidade, celebrando o início do ano com música, elegância e um espírito festivo que reforça o papel do Liceu como centro cultural vivo e plural.
A temporada de ópera: tradição, risco e excelência
A temporada do Liceu é reconhecida internacionalmente por seu equilíbrio entre grandes títulos do repertório e produções mais ousadas, tanto do ponto de vista musical quanto cênico. Verdi, Puccini, Mozart e Wagner convivem com óperas contemporâneas, leituras modernas de clássicos e coproduções com os principais teatros europeus.
Cada temporada costuma incluir óperas icônicas em produções de alto nível Novas encenações e leituras contemporâneas Regentes e elencos internacionais.
O ritual de ir à ópera em Barcelona
Assistir a uma ópera no Liceu é também um ritual social. O público é diverso — de amantes tradicionais da ópera a uma nova geração atraída por produções contemporâneas e preços mais acessíveis em determinados setores. Eu, particularmente, amo esse ritual e espero ansiosa cada ano para ver quais serão os espetáculos da nova temporada.

Diferente de outras capitais europeias, o ambiente é menos rígido: não há exigência de dress code formal, embora muitos escolham se vestir de maneira elegante, transformando a noite em um evento especial.

Antes do espetáculo, La Rambla ganha outro ritmo; no intervalo, o foyer se transforma em espaço de encontro, conversa e observação — tão parte da experiência quanto a música.

Um dos aspectos mais interessantes do Liceu é sua política de acesso à cultura. Graças a subsídios públicos e a uma estratégia ativa de democratização, os ingressos costumam ter valores mais acessíveis do que em outras grandes casas de ópera europeias. Isso desde que, claro, você seja “abonado” do Liceu, caso contrário, o valor de cada ingresso individual pode chegar a 250-300€. Esse é o preço da temporada inteira quando você é sócio.

Isso permite que a ópera permaneça integrada à vida da cidade, e não restrita a um público fechado — algo que surpreende positivamente quem está acostumado a preços muito mais elevados em teatros como os de Londres ou Paris.
Temporada de Ópera 2024/ 2025
La Traviata
Na temporada de 2024 do Gran Teatre del Liceu, no dia 14/11/2024, assistimos a La Traviata de Giuseppe Verdi retorna ao palco com uma produção dirigida por David McVicar que enfatiza o realismo dramático e a crítica social que faz desta ópera um dos grandes marcos do repertório verista.
A montagem situa a tragédia de Violetta Valéry em um contexto que ressalta a dureza das convenções sociais e a luta íntima da protagonista contra os preconceitos de uma sociedade rígida, destacando não apenas a beleza vocal, mas também a profundidade emocional da personagem principal.

Com um elenco de luxo — incluindo a soprano Nadine Sierra e o tenor Javier Camarena, entre outros solistas de renome — a temporada permite ao público experimentar o lirismo apaixonado e as intensas nuances dramáticas que Verdi impregnou em sua obra-prima. A produção combina excelência musical com cenografia e iluminação cuidadosas, reafirmando o Liceu como referência de ópera de alta qualidade na Europa.

Madama Butterfly
Nessa temporada, no dia 18/01/2025 também assistimos à Madama Butterfly de Giacomo Puccini que voltou a ocupar um lugar de destaque no repertório do teatro.

Em uma produção assinada por Moshe Leiser e Patrice Caurier e sob a batuta do maestro Paolo Bortolameolli, a obra oferece uma imersão no lirismo e na tragédia do clássico verista. A montagem respeita o espírito original da tragédia ambientada em Nagasaki no final do século XIX, quando o Japão se abre ao Ocidente e explora com sensibilidade musical a evolução dramática de Cio-Cio-San, a geisha que espera o amor de Pinkerton até o ponto de entrega total.

O elenco reúne sopranos de renome internacional que se alternam no exigente papel de Cio-Cio-San, reforçando a atração que a obra exerce sobre o público lírico. A produção inclui também momentos emblemáticos da partitura de Puccini, como a intensa cena de despedida e o famoso duo de “Un bel dì, vedremo”, que traduz a esperança profunda da protagonista.

Temporada de dança e ballet de 2025
A temporada de dança do Gran Teatre del Liceu em 2025 marca o retorno ao palco de um dos grandes clássicos do repertório romântico: Giselle, que eu assisti em 24/10/2025.





Após 15 anos sem ser apresentada no Liceu, a versão coreografada por Sir Peter Wright e interpretada pelo Bayerisches Staatsballett abriu oficialmente a programação de ballet na casa em outubro de 2025, com várias apresentações entre os dias 21 e 26 de outubro.


A produção combina a poesia dramática da história — que transita de um vilarejo idílico a um mundo fantasmagórico — com a música lírica de Adolphe Adam, sob a direção musical do maestro Robertas Šervenikas, e a Orquestra Sinfônica do Liceu.

Além de Giselle, a temporada de dança do Liceu inclui também outras propostas marcantes, como a Gran Gala de Danza, que reúne trechos icônicos do repertório clássico — de Petipa a Balanchine — mostrando a versatilidade e virtuosismo de bailarinos de companhias de renome internacional.
O Gran Teatre del Liceu não é apenas um palco para grandes vozes; ele reflete a própria identidade de Barcelona: culto, inquieto, contemporâneo e profundamente ligado à vida urbana.
Em uma cidade conhecida pela arquitetura e pelo design, o Liceu lembra que a música — especialmente a ópera — continua sendo uma das expressões mais poderosas de sua alma cultural.
