Porto · Portugal

Roteiro histórico pelo Porto: dias de documentação portuguesa entre Aliados, Sé e Palácio da Bolsa

Minha passagem pelo Porto teve um propósito muito concreto — resolver a documentação da minha nacionalidade portuguesa — mas acabou se transformando também em um mergulho histórico pela cidade.

Assim que cheguei, fui diretamente à Loja do Cidadão do Porto para solicitar o Cartão de Cidadão, etapa essencial após a emissão da certidão de nascimento portuguesa. O processo é relativamente simples, mas exige organização: são necessários cerca de 3 a 4 dias úteis para que o pedido seja concluído, e, tanto o cartão como o passaporte, fiquem prontos para levantamento. Com isso encaminhado logo na chegada, pude aproveitar os dias seguintes para conhecer — ou revisitar — o Porto com calma.

Desta vez, escolhi me hospedar na região dos Aliados, em um Airbnb charmoso e muito bem localizado.

O bairro me encantou de imediato, sobretudo a Avenida dos Aliados, verdadeiro eixo simbólico da cidade. Aberta no início do século XX como parte do plano de modernização urbana do Porto, a avenida concentra edifícios imponentes em estilo beaux-arts e art déco, além da Câmara Municipal, que domina o cenário ao fundo.

Entre esses edifícios está a sede da Caixa Geral de Depósitos, cuja presença reforça o papel dos Aliados como centro financeiro, administrativo e institucional da cidade. A avenida sempre foi palco de celebrações, manifestações e eventos cívicos, funcionando como uma espécie de sala de estar pública do Porto e refletindo a ambição urbana de uma cidade que se projetava para o século XX.

Na manhã seguinte, voltei à avenida para tomar café no tradicional Café Guarani, fundado em 1933. O Guarani é um clássico portuense, frequentado ao longo das décadas por jornalistas, artistas e políticos. O interior preserva elementos art déco e mantém viva a tradição dos cafés como espaços de convívio e observação da vida urbana.

Dali, segui a pé até o icônico McDonald’s Imperial, instalado no antigo Café Imperial, inaugurado em 1936. Mesmo transformado em fast-food, o espaço conserva vitrais, luminárias e detalhes decorativos originais, sendo frequentemente citado como um dos McDonald’s mais bonitos do mundo.

Continuei o passeio pela Rua das Flores, uma das mais antigas e elegantes do centro histórico. Criada no século XVI, foi durante muito tempo residência da elite mercantil da cidade. Hoje, combina prédios históricos com lojas contemporâneas, galerias e cafés.

Ali aproveitei para entrar na grande unidade da Druni, onde repus meu óleo da Olaplex, e logo depois fiz uma pausa gastronômica: comi um bolinho de bacalhau com queijo da Serra da Estrela na famosa Casa Portuguesa do Pastel de Bacalhau, localizada em um edifício histórico do século XVIII, antiga residência da família Ferreirinha, ligada ao vinho do Porto.

O roteiro seguiu para o Palácio da Bolsa, onde fiz um tour guiado. Construído no século XIX pela Associação Comercial do Porto, o edifício é um símbolo do poder econômico burguês da cidade após as Guerras Liberais.

Por dentro, impressiona pela diversidade de salas — o Salão Árabe, inspirado na Alhambra de Granada, é o ponto alto da visita, além das antigas salas de audiências e do tribunal do comércio, que revelam como o Porto se estruturou como centro mercantil internacional.

De lá, subi até a Sé do Porto, um dos monumentos mais antigos da cidade, iniciada no século XII. A catedral mistura estilos românico, gótico e barroco, reflexo das sucessivas intervenções ao longo dos séculos. O interior é sóbrio e imponente, contrastando com o belíssimo claustro revestido de azulejos que narram cenas religiosas e históricas. A Sé ocupa um ponto estratégico, reforçando o caráter defensivo e religioso do Porto medieval.

Encerrando o dia, visitei a Igreja de Santo Ildefonso, localizada próxima à Batalha. Construída no século XVIII, destaca-se pela fachada revestida de azulejos azuis e brancos, aplicados já no século XX. A visita teve um significado especial: revi a igreja exatamente dez anos depois da minha primeira vez no Porto. Um reencontro silencioso, que marcou não só o retorno à cidade, mas também o fechamento de um ciclo pessoal — agora com a documentação portuguesa finalmente encaminhada.

No dia seguinte, fui bem cedo à Loja do Cidadão para retirar o passaporte português, encerrando definitivamente a parte burocrática da viagem.

Com o documento em mãos, aproveitei as últimas horas no Porto para caminhar novamente pela Rua de Santa Catarina, eixo comercial da cidade desde o século XIX. A rua surgiu como parte do crescimento urbano fora das antigas muralhas e sempre concentrou cafés, lojas e a vida quotidiana da burguesia portuense, mantendo até hoje esse papel de artéria viva do centro.

Ali, revisitei pela terceira vez o Café Majestic, um retorno quase ritual. Inaugurado em 1921, o antigo Elite Café tornou-se um dos grandes símbolos da Belle Époque no Porto e permanece como testemunho de um tempo em que os cafés eram espaços de encontro intelectual e social. Não resisti a tomar o café da manhã ali, acompanhado do famoso croissant português, simples, amanteigado e perfeitamente integrado ao ambiente histórico.

Segui então até a Capela das Almas, também conhecida como Capela de Santa Catarina, cuja fachada é totalmente revestida por azulejos azuis e brancos do início do século XX. As cenas retratam episódios da vida de São Francisco de Assis e de Santa Catarina, padroeira da rua. Consegui assistir a uma missa antes de seguir para o aeroporto — um momento de pausa e fechamento simbólico da viagem.

Entre documentos, ruas históricas, cafés centenários e igrejas revestidas de azulejos, o Porto ofereceu o cenário ideal para encerrar um processo importante da minha história pessoal. Uma cidade onde a burocracia se resolve com eficiência, mas onde cada intervalo entre um compromisso e outro convida à memória, à observação e ao retorno.

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