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Nuremberg: poder imperial, mercado de natal e tradição no coração da Baviera

Visitar Nuremberg é atravessar uma cidade onde a história europeia se revela em camadas densas e, por vezes, desconfortáveis. Essa foi, sem dúvida, uma das minhas cidades favoritas da Alemanha, especialmente a tendo na época de Natal.

Nuremberg surgiu como um dos centros mais importantes do Sacro Império Romano-Germânico, posição consolidada a partir da Idade Média graças à sua localização estratégica nas rotas comerciais da Europa Central.

A cidade tornou-se rapidamente um polo de riqueza, artesanato e influência política, governada por uma poderosa elite burguesa que soube equilibrar autonomia urbana e lealdade imperial. Esse papel central explica por que Nuremberg foi escolhida como sede frequente de dietas imperiais e guardiã das insígnias do império durante séculos.

Dominando o horizonte está o Castelo Imperial de Nuremberg (Kaiserburg), construído a partir do século XI. Residência de imperadores e fortaleza defensiva, o castelo simboliza o poder imperial e o papel central da cidade na administração do Império.

Das muralhas, a vista alcança o centro histórico reconstruído após a Segunda Guerra Mundial de forma fiel ao traçado medieval — uma decisão consciente de preservação da identidade urbana.

Descendo em direção ao rio Pegnitz, começamos a notar numerosos relógios de sol (Sonnenuhren) espalhados pelas fachadas de Nuremberg.

Esses relógios refletem o papel da cidade como centro de ciência e precisão entre os séculos XV e XVII, quando medir o tempo era essencial para o comércio, a vida urbana e a ordem social. Esses instrumentos unem técnica e simbolismo, lembrando a passagem do tempo e a necessidade de disciplina.

Não por acaso, essa tradição científica floresceu na mesma cidade onde viveu Albrecht Dürer, artista profundamente interessado em matemática, proporção e astronomia, e cuja obra sintetiza a ligação entre arte, ciência e racionalidade que marcou Nuremberg.

Casa de Albrecht Dürer

Dürer não foi apenas um artista, mas um estudioso da matemática, da proporção e da observação rigorosa da natureza — valores que dialogam diretamente com os relógios de sol espalhados pela cidade.

Seu célebre coelho, desenhado com detalhe quase científico, é o exemplo perfeito dessa mentalidade: olhar atento, medição visual e respeito absoluto ao tempo e à realidade. Em Nuremberg, ciência e arte caminharam juntas, gravadas tanto nas fachadas quanto no papel.

Coelho de Albrecht Dücher

Os túneis próximos à casa de Dürer e na área próxima ao Castelo fazem parte das Historische Felsengänge, galerias subterrâneas escavadas na rocha desde a Idade Média para armazenar cerveja e proteger a cidade. Invisíveis à primeira vista, eles revelam como Nuremberg se organizava para sobreviver, preservar e resistir — acima e abaixo do solo.

Historische Felsengänge

Mais para frente, surge um dos edifícios mais emblemáticos da cidade medieval: o Heilig-Geist-Spital (Hospital do Espírito Santo). Fundado em 1332, ele funcionava como hospital e abrigo para idosos e necessitados, sustentado por doações privadas — um conceito avançado de assistência social para a época.

Heilig-Geist-Spital

Construído parcialmente sobre o rio, o edifício tornou-se um dos principais cartões-postais de Nuremberg e reflete a estreita ligação entre religião, caridade e poder urbano na Idade Média. Essa localização não foi casual: na época, os mortos, restos corporais e dejetos do hospital eram descartados diretamente no rio, prática comum em cidades medievais, quando higiene, fé e gestão urbana ainda se entrelaçavam de forma pragmática.

Poucos metros adiante está a Fleischbrücke (Ponte do Açougueiro), construída no final do século XVI. Inspirada na Ponte Rialto, de Veneza, ela ligava diretamente o mercado de carnes às áreas comerciais da cidade. Sua estrutura em arco único foi um feito de engenharia da época e simboliza a importância do comércio regulado e das guildas na economia medieval de Nuremberg.

Seguindo o curso do rio, a atmosfera muda ao chegar à Henkersteg (Ponte do Carrasco). Essa ponte de madeira, coberta, ligava o centro da cidade à Henkerhaus (Casa do Carrasco).

Na sociedade medieval, o carrasco (Henker) exercia uma função oficial, mas era socialmente marginalizado, vivendo fora das muralhas principais. A ponte simboliza essa separação física e moral entre justiça e sociedade. Hoje, o local abriga um pequeno museu que explica como punição, lei e ordem eram concebidas na Idade Média.

Voltando ao coração da cidade, surgem as grandes igrejas que estruturaram a vida religiosa e cívica. A Igreja de São Sebaldo é a igreja mais antiga de Nuremberg. Construída entre os séculos XIII e XIV, combina elementos do românico tardio com o gótico, refletindo a transição estética da época.

Dedicada a São Sebaldo, padroeiro da cidade, ao seu redor, o chão guarda uma história que passa despercebida a muitos visitantes. As grandes placas retangulares de pedra incrustadas no calçamento tratam-se de antigas lápides funerárias, que marcavam sepulturas do antigo cemitério paroquial que existia junto às paredes da igreja.

A Frauenkirche, localizada na Hauptmarkt, é um dos símbolos cívicos de Nuremberg. Construída no século XIV, sua fachada abriga o famoso relógio mecânico Männleinlaufen, que todos os dias ao meio-dia ganha vida: pequenas figuras dos príncipes eleitores giram em torno do imperador, encenando visualmente a ordem política do Sacro Império Romano-Germânico.

Séculos depois, essa mesma cidade seria escolhida por Hitler como palco de seus comícios, justamente por concentrar esse imaginário de autoridade, hierarquia e unidade nacional.

Hitler não criou o relógio, nem o modificou. Mas ele se apropriou do significado histórico de Nuremberg — e isso inclui a praça, a Frauenkirche e tudo o que elas representavam.

Justizpalast Nürnberg

O ciclo do poder, porém, se fecha a poucos quilômetros dali, no Palácio de Justiça de Nuremberg, onde funcionava o tribunal da cidade e que, após a Segunda Guerra Mundial, foi escolhido para sediar os Julgamentos de Nuremberg (1945–1946).

Sala 600

A Sala 600 foi preservada como espaço histórico e hoje integra o Memorial dos Julgamentos de Nuremberg, mantendo sua configuração original sempre que não está em uso judicial. Nela, após a Segunda Guerra Mundial os líderes do regime nazista foram julgados.

Eu, como boa jurista, amei conhecer esse tribunal, porque seus julgamentos marcaram a virada histórica em que o direito internacional – de todo o mundo – deixou de tratar apenas de Estados e passou a julgar pessoas, inaugurando a ideia de que há crimes tão graves que ofendem a humanidade como um todo. Os Julgamentos de Nuremberg são considerados a pedra fundadora do Direito Penal Internacional moderno.

Chritkindlemarkt

No inverno, porém, Nuremberg revela uma face mais acolhedora com o Christkindlesmarkt, um dos mercados de Natal mais antigos do mundo, com origens no século XVI. Realizado também na Hauptmarkt, é inaugurado pelo Christkind, figura angelical símbolo do Natal local.

As barracas seguem regras rígidas de tradição e oferecem Glühwein, doces de especiarias e as famosas Nürnberger Rostbratwürste, pequenas salsichas grelhadas servidas em trio no pão (Drei im Weggla) com Sauerkraut (chucrute).

Drei im Weggla

Outra iguaria é o Lebkuchen, que eu particularmente amo, doce típico de Nuremberg, surgiu na Idade Média a partir de receitas à base de mel, nozes e especiarias trazidas pelas rotas comerciais europeias. Para quem mora na Europa, o supermercado Lidl sempre cende esses dices na época de Natal junto com o Stollen, um pão doce recheado com Mazipan que é uma delícia!

As lebkuchen se apresentam tanto em formato redondo coberto por chocolate ou glacê de açucar, como em formato de coração, popularizado nas feiras e mercados festivos, e simboliza afeto, proteção e pertencimento na tradição germânica. Mais do que um doce, o Lebkuchenherz tornou-se um gesto simbólico: um presente para ser exibido, guardado e lembrado. Eu tenho um de Munique pendurado no relógio da sala de estar ;). Relógio que, muito em breve, será substituido por um cuco.

Lebkuchenherz

Ainda temos o Feuerzangenbowle que é uma variação ritual do Glühwein: um cone de açúcar embebido em rum é incendiado e derrete sobre o vinho quente, criando uma bebida mais intensa e um espetáculo típico dos mercados de Natal alemães.

Barraca de Feuerzangenbowle

No centro da Hauptmarkt está o Schöner Brunnen, a Fonte Bela, do século XIV. Suas esculturas representam a visão medieval do mundo — filósofos, profetas, imperadores e virtudes.

A Schöner Brunnen (Fonte Bela) também é cercada por uma lenda popular: conta-se que um jovem ferreiro apaixonado teria forjado secretamente o pequeno anel dourado da grade da fonte enquanto trabalhava em sua construção, como símbolo de esperança para conseguir se casar. O pai da noiva, ferreiro experiente da cidade, exigiu que o pretendente forjasse um anel perfeito, sem nenhuma emenda.

Desde então, girar o anel tornou-se um gesto ritual para atrair sorte, amor ou realização de desejos, especialmente no período do Advento.

O Natal se expande ainda para áreas temáticas: o Kinderweihnacht, mercado infantil com carrosséis e brinquedos artesanais;

O Markt der Nationen, com barracas internacionais; e os espaços para foto com o Papai Noel, sempre montados com estética clássica e sem excessos comerciais. Nas livrarias e lojas do centro histórico, é possível comprar Christkindl e enfeites artesanais para a árvore de Natal, seguindo modelos tradicionais da Francônia.

Finalmente, Nuremberg se revela como uma cidade que não suaviza a história — ela a preserva, a explica e a integra ao presente. No inverno, essa densidade histórica se mistura à tradição do Natal, criando uma das experiências urbanas mais completas e culturalmente ricas da Alemanha.

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